CAÇADA AOS PATOS
O sol não emergira ainda, mal se adivinhando, por uma claridade difusa e fria o seu futuro trajecto. Do outro lado, num escuro impenetrável, o ruido inconfundível da marcha dos cavalos. Que só a curta distancia se materializam com o seu volume e o cheiro a suor e couro.
O esforço, já difícil, pé no estribo seguida daquela sensação de insegurança e excitação mas o corpo moldando-se quase atávicamente á sela e ao movimento.
Os primeiros passos, ainda em terra firme, em simbiose, guiados um pelo instinto outro pela confiança. Pouco depois o espelho de água, reflectindo as estrelas e a claridade difusa. E a modificação do som dos passos: o chapinhar esforçado dos cascos vencendo a lama, a água e a distancia. Os juncos altos em ilhas cada vez mais cerradas são contornados laboriosamente enquanto possível. O Hugo á nossa frente, vai desviando e liderando o pequeno grupo. Agora as ilhas de junto tranformam-se num imenso e negro plasma que vamos atravessando e que quase nos arranca da sela.
Pouco a pouco o pantano vai acordando. Primeiro um rápido e impreciso bater de asas de algo que levanta para logo se esconder. Depois um canto tímido quase envergonhado vai ganhando vulto e companhia até se tornar uma sinfonia imperfeita que nos envolve num abraço de vida.
Adivinha-se agora o nascer do sol por uma cor mais vermelha e por um arrepio de frio que atravessa o ar.
O cavalo mantem-se no seu ritmo irregular, quase dançando ao som da tal sinfonia imperfeita. Fecho os olhos tentando perceber se é sonho, ou mesmo tentando não acordar nem sequer entender.
A opressão no peito, agora benigna, apaga todas as outras de um passado muito próximo.
O ganso! O cantar do ganso...Ultrapassa no seu tom roufenho e algo ridículo todas as palavras, todas as dúvidas e todas as questões. Enquanto o primeiro raio de sol descobre uma lagrima no canto do olho.... Que com ou sem sonho, com ou sem dúvidas, medos ou perguntas o coração do pantano bate pelo meu, o seu som ritmiza-se ao sabor da paz, da tal sinfonia que de tão melódica se fez imperfeita.
Atravessamos agora uma vasta extensão de água, sem limites, sem obstáculos, sem luzes nem sombras.
E escuta-se o primeiro tiro.
Um pouco de tudo.Livros, viagens, passatempos, pensamentos... Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidencia
quarta-feira, janeiro 17, 2007
domingo, novembro 19, 2006
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
Uma semana da ilha do Sal
Em Lisboa nevava. Pouco mais de 3 horas de avião e um strip progressivo: casaco, camisola, mangas da camisa arregaçadas.O progresso que se nota passados quase 15 anos. Hoteis de mais de 500 quartos. Urbanizações em projecto ou em construção. A recordação de certo Algarve e a noção que pouco restará, num futuro próximo, daquela tranquilidade e daquele contacto simples com a natureza. Sempre mais longe no tempo e na distancia...
domingo, janeiro 22, 2006
As árvores morrem deitadas
O Alentejo verde e anormalmente quente de final de Janeiro. O descanso satisfeito num tronco triste de sobreiro caído. Em frente, outro de uma simetria quase perfeita. O silencio ligeiro quebrado pelo protesto de um ramo que resiste e suporta ainda toda a árvore que em tempos lhe deu vida. A cada gemido mais se acentuava a obstinação mas mais se esgotava a resistência. De súbito, sem dobrar, partiu-se apenas, com um som mais grave e definitivo. E a árvore que em tempo o suportou e que ele tinha amparado de forma passiva já sem vida, rodou tão devagar como o fluir dos séculos do seu cerne, até jazer, agora de vez, na terra pobre e arenosa. E o Alentejo regressou verde e quente. E a última gota do orvalho da manhã brilhou ao sol, nas folhas indecisas do renovo.
PS- Não tem metáforas. Apenas aconteceu no descanso, a meio de uma caçada, ontem, algures no Alentejo.
PS- Não tem metáforas. Apenas aconteceu no descanso, a meio de uma caçada, ontem, algures no Alentejo.
segunda-feira, janeiro 09, 2006
debaixo do equador
Mas é justamente aí em S.Tomé que o drama começa e a paixão nasce.Paixão pelos direitos humanos? Era essa uma das incumbências de El-Rei para o herói. Limita-se se bem me lembro a visitar algumas roças e a salvar um indígena. Nunca foi ultrapassado pela situação porque nunca apresentou nem sequer pensou num plano lógico para inverter a escravatura real em que viviam os angolanos que para lá eram transferidos contra a sua vontade.Apaixonar apaixonou-se pela linda inglesa. O que daria até algum significado a outras lutas políticas que nunca o autor soube sequer enunciar. E já agora MST foi destacado há alguns anos, numa sondagem, como um símbolo sexual das mulheres portuguesas (sobretudo as casadas). Ora para um símbolo desses a imaginação (ou falta dela) demonstrada nas cenas mais picantes com uma loira tostada pelo sol, numa paisagem paradisíaca, praia deserta e a perder de vista, vento murmurando nos coqueiros a imaginação dizia, é muito indigente. Limitava-se por duas ou 3 vezes a enterrar a cabeça nos seios, porventura fartos e com outros atributos que se terá esquecido porventura de mencionar ou de notar.
Mas e o fim? No fim meus amigos...o herói morreu. Dizia Gabriel Garcia Marquez (no vivir para contar-la) algo como " nunca mates um personagem se não tiveres uma razão poderosa para isso".Terá ele morrido às balas da polícia à frente dos negros que devia proteger e que lutavam pela sua liberdade? Não. Terá ele sido vítima de envenenamento palaciano devido a ser incómodo para o capitalismo desenfriado? Também não. Terá ele morrido por uma causa? Também não. Suicidou-se tranquilamente. In style.
Quer-me parecer que para suicídio e sobretudo do herói teria Gabriel Garcia Marquez palavras ainda mais reticentes.
Fica a dúvida porque se terá o herói matado. Seria por ter descoberto a sua total inabilidade para a tarefa que o incumbiram e que nem sequer iniciou?Será que se teria suicidado da mesma forma, se em vez de encontrar a amante na cama com um negro a encontrasse com um capataz da roça ou mesmo com o marido?Ou seria porque o livro já ia longo e não sabia o que fazer com um personagem que começa como um cínico em Lisboa, continua como um incapaz e termina como um fraco?Felizmente o Equador não é autobiográfico...
PS: já agora sugeria que para a próxima edicção cortassem a verdadeira invasão de " enquanto que" que alaga o texto.
Mas e o fim? No fim meus amigos...o herói morreu. Dizia Gabriel Garcia Marquez (no vivir para contar-la) algo como " nunca mates um personagem se não tiveres uma razão poderosa para isso".Terá ele morrido às balas da polícia à frente dos negros que devia proteger e que lutavam pela sua liberdade? Não. Terá ele sido vítima de envenenamento palaciano devido a ser incómodo para o capitalismo desenfriado? Também não. Terá ele morrido por uma causa? Também não. Suicidou-se tranquilamente. In style.
Quer-me parecer que para suicídio e sobretudo do herói teria Gabriel Garcia Marquez palavras ainda mais reticentes.
Fica a dúvida porque se terá o herói matado. Seria por ter descoberto a sua total inabilidade para a tarefa que o incumbiram e que nem sequer iniciou?Será que se teria suicidado da mesma forma, se em vez de encontrar a amante na cama com um negro a encontrasse com um capataz da roça ou mesmo com o marido?Ou seria porque o livro já ia longo e não sabia o que fazer com um personagem que começa como um cínico em Lisboa, continua como um incapaz e termina como um fraco?Felizmente o Equador não é autobiográfico...
PS: já agora sugeria que para a próxima edicção cortassem a verdadeira invasão de " enquanto que" que alaga o texto.
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Na periferia do Equador
No ano que agora terminou muitas vezes ouvi falar de 2 livros. Num deles, o Código de daVinci terá de se reconhecer que foram utilizados todos os truques literários para prender a atenção. E prendeu, ao ponto de algumas pessoas cujo discernimento não punha em causa até então, confundirem a ficção com a realidade. Daria um interessante estudo genético a procura dos genes divinos no Y do Espírito Santo!
Mas do que queria falar era mesmo do Equador. Devo dizer em primeiro lugar que apreciei em tempos o MST, na reportagem e mais ainda como entrevistador de televisão. Parecia trazer um género descontraído, perguntas com senso, que quase faziam esquecer um certo ar "negligé snob".
Até que cheguei á leitura do Equador. Enorme como o paralelo de que tem o nome.
O período histórico escolhido tinha enormes potencialidades. O snobismo transparecia um pouco quando dedicou várias páginas à Purdey (uma das armas de caça mais caras e aristocráticas) de forma algo panfletária. Mas isso seria desculpável num caçador de tão recente data.
A parte do romance passado na Índia prende o leitor embora a história do jogador caído em desgraça seja tão velha como a literatura e seguramente já tratada por outros autores com muito maior fôlego. Daí o não se ter preocupado minimamente com o perfil psicológico do jogador. Mas o fundo moralista do pecado-castigo, do MST também já era bem conhecido. Quando não se entende condena-se convenientemente. Neste caso a um exílio em S. Tomé e Príncipe.
Salva-se desta fase a magnífica e escultural inglesa curtida pelo sol do subcontinente.
Que o seu herói encontra justamente nessas ilhas do equador
(tem continuação)
No ano que agora terminou muitas vezes ouvi falar de 2 livros. Num deles, o Código de daVinci terá de se reconhecer que foram utilizados todos os truques literários para prender a atenção. E prendeu, ao ponto de algumas pessoas cujo discernimento não punha em causa até então, confundirem a ficção com a realidade. Daria um interessante estudo genético a procura dos genes divinos no Y do Espírito Santo!
Mas do que queria falar era mesmo do Equador. Devo dizer em primeiro lugar que apreciei em tempos o MST, na reportagem e mais ainda como entrevistador de televisão. Parecia trazer um género descontraído, perguntas com senso, que quase faziam esquecer um certo ar "negligé snob".
Até que cheguei á leitura do Equador. Enorme como o paralelo de que tem o nome.
O período histórico escolhido tinha enormes potencialidades. O snobismo transparecia um pouco quando dedicou várias páginas à Purdey (uma das armas de caça mais caras e aristocráticas) de forma algo panfletária. Mas isso seria desculpável num caçador de tão recente data.
A parte do romance passado na Índia prende o leitor embora a história do jogador caído em desgraça seja tão velha como a literatura e seguramente já tratada por outros autores com muito maior fôlego. Daí o não se ter preocupado minimamente com o perfil psicológico do jogador. Mas o fundo moralista do pecado-castigo, do MST também já era bem conhecido. Quando não se entende condena-se convenientemente. Neste caso a um exílio em S. Tomé e Príncipe.
Salva-se desta fase a magnífica e escultural inglesa curtida pelo sol do subcontinente.
Que o seu herói encontra justamente nessas ilhas do equador
(tem continuação)
segunda-feira, dezembro 26, 2005
O Natal dos Presentes
Ouço e leio opiniões divergentes. O natal dos bons sentimentos, do Mr Scroodge depois do espírito dos natais futuros, das promessas e do altruísmo. Encontro o natal dos ódios, dos distanciamentos e das mensagens de silêncio. Da retaliaçãoo em nome do amor e da paixão. Reencontro-me na memória dos desaparecidos e no calor dos presentes. Não se convencionou que esta é uma época de presentes?!
Ouço e leio opiniões divergentes. O natal dos bons sentimentos, do Mr Scroodge depois do espírito dos natais futuros, das promessas e do altruísmo. Encontro o natal dos ódios, dos distanciamentos e das mensagens de silêncio. Da retaliaçãoo em nome do amor e da paixão. Reencontro-me na memória dos desaparecidos e no calor dos presentes. Não se convencionou que esta é uma época de presentes?!
segunda-feira, dezembro 19, 2005
sábado, agosto 13, 2005
A fácil dedução
Um dia, quem sabe, (?) acordarás com a plena consciência do que fizeste. Das razões fúteis para a mentira e a para a traição. Não te dará espaço ou não haverá tempo para o arrependimento. Mas a vida ser-te-á curta para a lenta consumação do remorso.
quinta-feira, julho 14, 2005
Da indecisão aos princípios
A indecisão marcou-a desde muito cedo. Só se tornou no entanto notória quando deu consigo a não conseguir dar o passo seguinte, por altura de uma adolescência precoce. As horas que passava na indecisão de mover apenas um pé retinham-na prisioneira no seu quarto e nela própria. Terá então descoberto um dia a solução dos "princípios". De justiça? Claro. De noção de honra e lealdade? Evidentemente! Pela defesa dos seus "princípios" todos os passos eram possíveis. Dos princípios fez motor de pesquisa. Dos princípios ficou prisioneira. Não já do quarto mas ainda dela própria.
(continua com "Dos Princípios á realidade virtual")
(continua com "Dos Princípios á realidade virtual")
Apenas ficção (parte 2)
Por volta dos 10 anos resolveu fazer a sua escolha. Seria homossexual quando fosse grande anunciou contra tudo e sem que ninguém o pressionasse. Numa altura em que todos sentem dúvida e procuram, concluiu apenas por uma das vertentes de si próprio. Apressadamente como se quisesse assumir desde logo o compromisso. Terá confundido as sombras que o assustavam e perseguiam com o seu próprio ser? O que é seguro é que foi de encontro aos seus receios e identificou-se, rendeu-se. Mas...ainda e sempre a comparação com os outros. E sobretudo as miragens. Não encaixava certamente no papel que para ele tinha sonhado a vendedora de miragens.(tem continuação)
Por volta dos 10 anos resolveu fazer a sua escolha. Seria homossexual quando fosse grande anunciou contra tudo e sem que ninguém o pressionasse. Numa altura em que todos sentem dúvida e procuram, concluiu apenas por uma das vertentes de si próprio. Apressadamente como se quisesse assumir desde logo o compromisso. Terá confundido as sombras que o assustavam e perseguiam com o seu próprio ser? O que é seguro é que foi de encontro aos seus receios e identificou-se, rendeu-se. Mas...ainda e sempre a comparação com os outros. E sobretudo as miragens. Não encaixava certamente no papel que para ele tinha sonhado a vendedora de miragens.(tem continuação)
quinta-feira, junho 16, 2005
Laboratório de vida
Uma vida cheia de intimidade e de partilha. A possibilidade de perceber e aprender com os sentimentos, a sensibilidade, os erros, os defeitos e a coragem dos outros.Exemplos de resistência e exemplos de debilidade. De amor e ódio. De desinteresse e de ganância. De fria ponderação e de explosão descontrolada. Todos eles coexistindo num meio próximo, num tempo curto, muitas vezes na mesma pessoa.
quarta-feira, junho 15, 2005
Apenas ficção (parte 1)
Por pura distracção do destino nasceu na véspera de Natal. Cabeça grande, braços desproporcionadamente longos, olhos indefinidos. Que coisa feia comentou o avô com a experiencia de parteiro de mil partos e a franqueza de médico de família que de costume amenizava atrás de uma reconhecida sensibilidade. Foi apesar disso crescendo e tomando consciência do seu corpo, como de resto todas as crianças.
E começou a manipular objectos que, renitentemente, tinham uma relação instável e insegura com ele. Partiam-se, estragavam-se, deterioravam-se, imagine-se até que se desintegravam. Sem qualquer esforço aparente mas com consequências desastrosas. Mais para a sua própria personalidade que para a economia doméstica. Compensava no entanto este pormenor de somenos importância com uma imaginação produtiva e uma rara agudeza de raciocínio. Na sua mente podia manipular os acontecimentos e os objectos virtuais à vontade. Eles moviam-se à velocidade da luz para onde quisesse nas mais incríveis e inimagináveis trajectórias. Incólumes.
Chegou depois à idade de apreciar os outros. Os braços, a destreza, o carácter. Daí nasceu primeiro a consciência da diferença. Depois a admiração. No meio permaneceu a inveja. A revolta apareceu mais tarde. A raiva era apenas um escape ocasional.
Por essa altura o “morcego vermelho” era o seu herói e modelo. Mas todos temos também um pesadelo e uma consubstanciação do medo daquilo que não nos queremos sentir nem ser. E aconteceu transformar um inócuo tontinho do bairro a quem todos davam uma moeda para o café, nessa sombra persecutória e aterradora.
E começou primeiro a evita-lo. Depois a fugir e a esconder-se. Depois a desconfiar de todas as sombras. Nunca chegou a perceber se fugia apenas dele próprio.
E começou a manipular objectos que, renitentemente, tinham uma relação instável e insegura com ele. Partiam-se, estragavam-se, deterioravam-se, imagine-se até que se desintegravam. Sem qualquer esforço aparente mas com consequências desastrosas. Mais para a sua própria personalidade que para a economia doméstica. Compensava no entanto este pormenor de somenos importância com uma imaginação produtiva e uma rara agudeza de raciocínio. Na sua mente podia manipular os acontecimentos e os objectos virtuais à vontade. Eles moviam-se à velocidade da luz para onde quisesse nas mais incríveis e inimagináveis trajectórias. Incólumes.
Chegou depois à idade de apreciar os outros. Os braços, a destreza, o carácter. Daí nasceu primeiro a consciência da diferença. Depois a admiração. No meio permaneceu a inveja. A revolta apareceu mais tarde. A raiva era apenas um escape ocasional.
Por essa altura o “morcego vermelho” era o seu herói e modelo. Mas todos temos também um pesadelo e uma consubstanciação do medo daquilo que não nos queremos sentir nem ser. E aconteceu transformar um inócuo tontinho do bairro a quem todos davam uma moeda para o café, nessa sombra persecutória e aterradora.
E começou primeiro a evita-lo. Depois a fugir e a esconder-se. Depois a desconfiar de todas as sombras. Nunca chegou a perceber se fugia apenas dele próprio.
terça-feira, junho 14, 2005
sábado, maio 21, 2005
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