sábado, julho 18, 2009

A antecipação

É talvez o que melhor traduz o nosso estado de humor de momento. Dêem-lhe a perspectiva de um momento bom e o prazer começa na nossa imaginação. Mas juntem-lhe um humor menos feliz e a mesma perspectiva antecipa-se em complicações e consequencias.

quinta-feira, julho 16, 2009

Uma questão de calibre

Longe vai o tempo em que viajava para a caça com duas automáticas de calibre 12, cada um dos 5 tiros que comportava carregado com 36 gramas de chumbo. Ao fim de umas centenas de tiros, violentos e ensurdecedores, parava. Mais por uma questão de desconforto que por satisfação.
Fui então progressivamente aprendendo o prazer dos pequenos calibres. Ultrapassei a desconfiança inicial do calibre 20 e dos 24 gr de chumbo. Em seguida seduziu-me o cartucho pequenino da calibre 28 com os seus 19 gramas. Inicío agora uma 410 com apenas 14 gramas.
Vivia eu na minha certeza de que o tamanho não interessava quando alguém aqui na net, numa das conversas que temos com regularidade nos últimos dias, me alertou para as diferenças da caça ao urso. Não interessa a altura dele. Até pode ser pequenino! Pode mesmo aparecer só muito ocasionalmente. Na maior parte das vezes será até prazeiroso, inócuo e inconsequente. Mas quando chega a apreciação do calibre começam os problemas técnicos. Não há cartucheira, nem XL, que o acomode.
Não sei se tenha pena ou inveja do urso. Apenas abalou a minha evolução e as minhas certezas.

segunda-feira, julho 06, 2009

Conceitos

Nas presentes eleições para os órgãos de Gestão da nossa Faculdade, embora integre modestamente uma das listas, tentei manter um distanciamento que se não completamente neutro, me ajudasse a perceber os princípios das duas listas.
Apreciei a elevação e o espírito de cada um dos documentos elaborados e, devo dize-lo, agradaram-me como académico e fizeram-me sentir orgulho numa Faculdade que mostrou dentro de si o poder de discutir e de se renovar.

Tenho, por outro lado, uma enorme admiração, respeito e até gratidão pelo Professor Manuel Antunes.

E se me dou ao trabalho de sair do tal distanciamento gostaria de destacar que o faço apenas para defesa dos princípios que penso devem nortear uma vivencia universitária e á consideração que tenho pelo autor do texto “razões para dar apoio prévio a um candidato a Director da Faculdade”. Texto esse que me motiva algumas reflexões
.
Começa e bem por destacar o papel importante que os actuais estatutos dão ao Director da Faculdade classificando mesmo os poderes que virá a ter como “praticamente ilimitados”. E como esses poderes são ilimitados, nada melhor do que ser o próprio a escolher os nomes que integram o colégio que o deve eleger e porventura “desnomear”.
Não posso obviamente estar de acordo com este princípio. Dados os amplos poderes de que dispõe o Director da Faculdade a função deste órgão colegial (Assembleia) deverá ser determinante e não se esgota na nomeação e eventual desnomeação como diz expressamente o autor do texto. É, em minha modesta opinião, o único órgão eleito e com poderes para avaliar, discutir, analisar e criticar a sua actuação.
A isto responde também o signatário da carta dizendo que há pessoas que não sabe a que mundo pertencem. Eu gostaria de sublinhar que há pessoas que pertencem a um mundo em se acredita num trabalho colegial, numa liderança que se possa criticar e influenciar. Considero mesmo o sistema colegial como a verdadeira essência do funcionamento universitário.
E aqui a escolha afigura-se-me simples. Ou escolhemos representantes em que se revejam as nossas posições, as nossas ideias o nosso espírito ou escolheriamos á partida um director para que ele próprio escolhesse os seus “representantes”.
A menor inocuidade democrática desta posição é ainda agravada quando a compara com as eleições legislativas. (“Os deputados à Assembleia da República também serão os fiscalizadores do Governo, e portanto do Primeiro-ministro, que daí resultarão.
E, no entanto, todos sabemos quem elabora a lista dos deputados e quem vai à
frente dela.”)

Tenho a veleidade de pensar, no mundo em que vivo, que:
1º Os bons exemplos devem ser seguidos
2º É das universidades, da sua capacidade para pensar em conjunto, para discutir, para antecipar, para investigar que pode nascer a liderança de processos políticos, democráticos, sociais e científicos.
Este abdicar desta importante vertente seminal, para importar exemplos da política geral do País, parece-me uma indesejável inversão de conceitos e de atitudes.

Mas ainda há uma frase que me motivaria uma discussão porventura demasiado académica para este momento:
… “eu não conheço nenhum movimento, nenhuma religião, nenhum programa político sem um líder. Como também não conheço nenhum líder político ou religioso sem um movimento, sem uma religião.”
Comentarei apenas que, em minha modesta opinião, há lideres que nascem do movimento que se gera, da tal antecipação que atrás falava como papel da universidade. Consagram em si as reflexões, o trabalho, as ambições e os princípios do movimento que encarnam.
Depois claro há os outros: que geram eles próprios os movimentos, que os controlam, fiscalizam e auto perpetuam. (Devo destacar que em minha opinião nenhum dos dois candidatos propostos se integra nesta definição).
No meu mundo universitário prefiro, talvez ingenuamente, os primeiros.

domingo, julho 05, 2009

A recordação

Cheguei agora mesmo da prova de homenagem. Uma oportunidade de relembrar o sorriso franco e aberto que aprendi a conhecer muito antes de ele ter entrado na adolescencia. Meio pesado, bonacheirão, que se tornava felino , frio e de eficácia incrível quando atirava.
- "ò Bebé explica-me como se parte aquele prato". E o puto ensinava-me repetidamente, com carinho e eterna paciência.
A última vez que o vi mostrava-me com orgulho uma enorme moto reluzente. Terá sido dessa moto também a sua última e derradeira visão.
Como gostava de acreditar que ele partiu apenas para o grande e eterno paraíso dos caçadores. Que a vida é injusta mas sábia...

quinta-feira, julho 02, 2009

Há dias...

Em que tudo corre ao contrario do planeado. Há situações que teimam em alterar-se. Ás vezes sucedem-se em "cluster" dificilmente explicáveis pelo acaso. Quase como um teste repetido á nossa resistencia á frustração. Penso que nessas alturas, melhor que a revolta, é deixar-se embalar pelas vagas continuas. E disfrutar do destino que nem sempre se pode controlar...

quarta-feira, junho 17, 2009

Saudades de ser médico



Por vezes assalta-me esta nostalgia. Do tempo em que na relação não se intrometia uma equipa de técnicos, 3 ou 4 administradores, "guidelines", orçamentos, planos quinquenais, produtividade, meta-análises, custo-benefício. Do diagnóstico que se fazia olhos nos olhos usando os sentidos e a sensibilidade. Do doente que não exigia TAC, RNM, video-eeg, PET. Como doente estarei porventura mais protegido? Se todos os exames forem normais acabará o meu problema quer como doente quer como médico?

quinta-feira, junho 11, 2009

Quase de saida do barranco

Despedida de um outono sereno e frio para um fim de primavera que desejo quente. Do novo para o velho mundo. De um eu para outro. E o rio correndo inexorável para "mar de la plata"...

terça-feira, junho 09, 2009

Vícios circulares

Dei comigo a pensar que há vícios que se saciam como a sede e há outros que se autoalimentam como os "lobbies".

terça-feira, junho 02, 2009

Ainda no barranco do rio Paraná

Depois de uma madrugada de patos "colorados" (os mais lindos) lendo Luís Rosa e o dia de Aljubarrota. Deixando-me embalar pelo português quase arcaico sem tentar entender cada palavra. Enquanto tento perceber o que nos separa do espanhol que me rodeia passados quase 700 anos.

sexta-feira, maio 29, 2009

Num barranco do rio Paraná lendo Roth

O animal moribundo com o rio correndo inexorável aos pés. As flechas certeiras do tempo, da justificação e do imaginário.É provável que seja um livro que não se deva terminar. Mas para imaginar finais de acordo com os momentaneos estados de alma.

sábado, abril 25, 2009

Quanto tempo duram as linhas paralelas ?

Duas linhas nunca começam paralelas. Primeiro é natural que se encontrem, se entrelacem, se confundam. Depois começa o caminhar lado a lado com os olhos no horizonte que se confunde facilmente com o infinito. Uma força e energia invisível mantem a distancia e os objectivos. Mas também a divergência não surge de repente. Apenas como algumas incursões a solo que rapidamente conduzem á gravitação da tal força. Até um dia.....

segunda-feira, abril 13, 2009

Orgulho sem preconceito

Nunca tive de sair por a isso ser forçado. Resisti aos vendavais ás tormentas e aos amigos. Á destruição, á calunia e á maldade. Á hipocrisia e á ganancia. Ao desamor e á paixão. A tudo sobrevivi com sofrimento mas sem vacilar. Agora que os últimos ecos se vão esmorecendo saio porque quero...sem vacilar e sem rancor. Sem dobrar.Por opção, sem estratégia e sem mensagem.

sábado, abril 11, 2009

Quantos anos tem a tempestade?

Desci da bicicleta para descansar antes de iniciar os 20 quilómetros que me faltavam para voltar a casa. Num canal estreito dois homens descarregavam para a margem de junco a safra de moliço do dia, que se ia juntar ainda brilhante ao pé do mais antigo que fumegava tranquilo.
A conversa que início, perguntas de circunstancia, e as respostas sincopadas de quem se vê interrompido no seu trabalho. Respostas avaliadas e pensadas a que não ligo grande importância.
Entretanto as nuvens adensam-se numa escuridão que prenuncia a tormenta.
- Bem, vou andando que desta molha já não me livro- disse olhando algo desconsolado para os finos pneus e montando na bicicleta. Pensava que o diálogo tinha terminado. Já tinha virado as costas e começado a afastar-me quando uma última frase me atingiu. tão inesperada como um raio:
- Essa tempestade é mais velha do que nós.
Olhei para trás com o desconforto da cabeça mal virada e num único olhar tentei avaliar a sanidade do homem. E fui sempre pedalando e esperando sentir a agulha do primeiro pingo ou o ressoar de algum trovão. Que nunca mais chegavam. Então entendi que por mais livros que tivesse lido, por mais metereologia que tivesse consumido, por maior sofisticação que presumisse possuir havia coisas simples que não vinham nos livros, que não constavam no vocabulário dos metereologistas e sofisticação que eu nunca seria capaz de atingir.
A tempestade era de facto mais velha do que nós. Aquando da última frase já ela tinha atingido o ponto de não retorno. Se tivesse continuado a falar com ele talvez ele me tivesse explicado que muitas das tempestades que presumi e antecipei já eram mais velhas do que eu...

domingo, fevereiro 01, 2009

Bens, opções e Gerações

Há primeiro o sistema monárquico. O filho é protegido até á exaustão em deterimento de outros com maior capacidade e merecimento. Existe um "complot" a dois, por vezes tão descarado que só os próprios não se apercebem do ridículo. Frequentemente a segunda geração sobrevive enquanto o progenitor protege afundando-se depois na mediocridade de que as circunstancias nunca o deixariam sair. Tem um elevado preço portanto.

Depois há várias variantes deste sistema. Escolhe-se por exemplo uma actividade na área de influencia do Pai. Aqui já o "complot" terá de ser a mais de dois, a três , quatro, os que forem precisos. E a necessidade de finas redes de interesses, concessões e cumplicidades por vezes tão intrincadas como a trama dos primeiros livros de Le Carré. São os "monárquicos encapotados" e por isso mais hipócritas do que os primeiros.
É de mais difícil detecção para os de fora. Mas o preço final é o mesmo. Podem atingir altíssimos parâmetros técnicos mas sentem no fundo que lá chegaram por favor. Continuam a não ter vida própria fora dessa rede que os protege da uniformização mas também os prende fora da criatividade, da evolução. E nunca é fácil quebrar uma rede que nos protege sobretudo se houver uma réstia incómoda de consciência e o receio do mundo fora dela que nunca se teve oportunidade de conhecer.

Depois há ainda os outros para quem a influencia economica, política ou profissional do pai nada significa, Ou porque o viu trabalhar arduamente e não quer essa vida. Ou porque na comparação que de si faz com a geração precedente se declarou vencido á partida. Aí resta-lhe esperar, ás vezes escolhendo uns hobbies mais ou menos profissionais como passatempo, até que para si transborde não a competencia, nem a influencia, nem mesmo o protagonismo. Mas apenas o dinheiro. Sobra-lhes na espera o ciume e a envidia. Chegará depois o remorso?

Claro que depois há os outros...os que todos conhecemos e admiramos.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

sábado, janeiro 10, 2009

Não será verdade mas...

O segundo marido de uma mulher autoritária é muito parecido com o carro que escolhe: grande, utilitário e barato.