Um pouco de tudo.Livros, viagens, passatempos, pensamentos... Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidencia
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Acidente no Deserto
segunda-feira, janeiro 05, 2009
Machado de Assis
"A venalidade,
disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender
a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e
legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o
teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há
mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue
para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um
privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o
princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou
pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a
hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente."
A Igreja do Diabo, de Machado de Assis
disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender
a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e
legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o
teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há
mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue
para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um
privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o
princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou
pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a
hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente."
A Igreja do Diabo, de Machado de Assis
sábado, janeiro 03, 2009
TUDO O QUE LUZ É OURO
Por vezes procuramos a simplificação das coisas. Entramos numa relação superficial em que só o aspecto exterior nos interessa. Procuramos uma companhia que não suspeite da profundidade daquilo que pensamos e dizemos. De preferência que nem se aperceba desse mundo que transportamos dentro de nós qual “Esteves sem metafísica...” Alguém a quem o nosso percurso profissional nada diga. Que leia “hollas” e “point de vue” e não perceba porque passamos um ano a ler As Benevolentes. Ou que até ache esse titulo ousado e o tome como provocação pessoal, senão mesmo manifesto sinal de infidelidade.
Ou que procure nos “ Ratos e homens” da estante modelos de armadilhas para acabar com a praga.
Que nos olhe com ar de adoração desmedida mesmo que não passe de miopia ou de dilatação pupilar própria dos olhos claros.
E entramos como personagem numa telenovela quando preferíamos ao menos uma série inglesa. Não por uma questão de cultura mas por ser mais curta
Ou que procure nos “ Ratos e homens” da estante modelos de armadilhas para acabar com a praga.
Que nos olhe com ar de adoração desmedida mesmo que não passe de miopia ou de dilatação pupilar própria dos olhos claros.
E entramos como personagem numa telenovela quando preferíamos ao menos uma série inglesa. Não por uma questão de cultura mas por ser mais curta
sexta-feira, janeiro 02, 2009
Sai-se Devagar do Deserto
Numa imensidão de areia em que nem os horizontes têm fim.
Pouco interessa como aí se chegou. Pela conquista metro a metro de uma longa e deliberada estrada e caminhos? Por uma sucessão de erros e desvios? Por defesa de princípios talvez ultrapassados? Por uma queda vertiginosa?
Qualquer das hipóteses é possível assim como todas elas. De lamentar mesmo é os que não sabem como lá foram parar.
E depois de lá estar, que emoções provoca o deserto? Silencio, solidão. Mas também uma liberdade sem limites, a superação e a sobrevivência.
Mas qualquer que seja o motivo que aí nos transportou e as sensações que nos provoca há um dia em que se começa a procurar o caminho de saída.
Alguns voltam cautelosos, quiçá arrependidos, pelo mesmo caminho que aí os conduziu. Muitos para descobrir que o regresso é apenas a primeira etapa de um círculo que obsessiva e insatisfatóriamente vão percorrer o resto da vida.
Mas já que estamos no deserto imaginemos que procuramos outra saída. Seguimos novos trilhos e novas pistas. Algumas vão desaparecendo de baixo dos nossos pés. Ás vezes parece que lenta e deliberadamente. Noutras o final é brusco e quase agressivo. Outras vão-se desviando e tomando rumos para fora de nós próprios e da rosa dos ventos.
Mas um dia encontraremos uma pista que conduz, simples e quase distraída, a algo que parece ser o fim de um leito seco de um riacho que há muito se perdeu no deserto. Seria irónico que a nossa saída começasse precisamente onde um dia se perdeu a água e a vida.
Vamos seguindo essa suspeita de leito seco que a principio parece tão ténue como a nossa convicção. Depois torna-se mais definido quase como um desejo. Em seguida surge o primeiro arbusto, ainda seco, talvez como a esperança no seu renascimento. A partir dai o leito já é marcado pela presença de pedras que um dia terão rolado das montanhas e aí se quedaram como a tenacidade.As pedras cada vez mais juntas dão mais firmeza aos nossos passos e caminhamos agora num equilíbrio instável. E ao longe aparece a primeira árvore cinzenta e indefinida. que depois se transforma num conjunto aleatório e espaçado. Aí começamos a ter certezas. Estamos de facto num caminho de saída.
Simultaneamente aparece-nos um nómada cuja tribo não conhecemos e as montanhas longínquas que limitam o deserto. O nómada não nos compreende mas a sua presença indica-nos que estamos num caminho que nunca trilhamos. O anel de montanhas abre-nos um vale como porta de saída.
Chegamos ao verdadeiro momento de decisão e percebemos que até aí vivemos apenas para a procura. Entramos nessa porta que se nos abre para fora do deserto mas para algo que desconhecemos? Ou retrocedemos prudentemente (?!)
Imaginemos que aceitamos essa porta, essa nova vida e o desafio. As árvores cinzentas entre cruzam-se agora com o verde ainda envergonhado das primeiras palmeiras. Que as vão progressivamente suplantando em número. É já visível a neve no cimo das montanhas. E não sabemos se o arrepio súbito que sentimos é devido ás longas sombras que sobre nós a montanha projecta ou se é um dos últimos apelos do deserto que nos chama para o seu calor.
No palmeiral cada vez mais denso ouviu-se agora mesmo o o barulho ensurdecedor de um bater de asas da primeira ave e a aldeia materializa-se a partir da terra vermelha.
Daí o percurso é fácil: alcatrão e movimento que recebemos sem tentar interpretar.
Mas para a libertação do feitiço do deserto é preciso um voo. Seja ele o avião para Lisboa seja um golpe de asa poderoso e decisivo. Para sair dele mas mesmo assim ficar mais próximos de nós, com que no seu seio nos reconciliamos.
Do deserto sai-se devagar...
Pouco interessa como aí se chegou. Pela conquista metro a metro de uma longa e deliberada estrada e caminhos? Por uma sucessão de erros e desvios? Por defesa de princípios talvez ultrapassados? Por uma queda vertiginosa?
Qualquer das hipóteses é possível assim como todas elas. De lamentar mesmo é os que não sabem como lá foram parar.
E depois de lá estar, que emoções provoca o deserto? Silencio, solidão. Mas também uma liberdade sem limites, a superação e a sobrevivência.
Mas qualquer que seja o motivo que aí nos transportou e as sensações que nos provoca há um dia em que se começa a procurar o caminho de saída.
Alguns voltam cautelosos, quiçá arrependidos, pelo mesmo caminho que aí os conduziu. Muitos para descobrir que o regresso é apenas a primeira etapa de um círculo que obsessiva e insatisfatóriamente vão percorrer o resto da vida.
Mas já que estamos no deserto imaginemos que procuramos outra saída. Seguimos novos trilhos e novas pistas. Algumas vão desaparecendo de baixo dos nossos pés. Ás vezes parece que lenta e deliberadamente. Noutras o final é brusco e quase agressivo. Outras vão-se desviando e tomando rumos para fora de nós próprios e da rosa dos ventos.
Mas um dia encontraremos uma pista que conduz, simples e quase distraída, a algo que parece ser o fim de um leito seco de um riacho que há muito se perdeu no deserto. Seria irónico que a nossa saída começasse precisamente onde um dia se perdeu a água e a vida.
Vamos seguindo essa suspeita de leito seco que a principio parece tão ténue como a nossa convicção. Depois torna-se mais definido quase como um desejo. Em seguida surge o primeiro arbusto, ainda seco, talvez como a esperança no seu renascimento. A partir dai o leito já é marcado pela presença de pedras que um dia terão rolado das montanhas e aí se quedaram como a tenacidade.As pedras cada vez mais juntas dão mais firmeza aos nossos passos e caminhamos agora num equilíbrio instável. E ao longe aparece a primeira árvore cinzenta e indefinida. que depois se transforma num conjunto aleatório e espaçado. Aí começamos a ter certezas. Estamos de facto num caminho de saída.
Simultaneamente aparece-nos um nómada cuja tribo não conhecemos e as montanhas longínquas que limitam o deserto. O nómada não nos compreende mas a sua presença indica-nos que estamos num caminho que nunca trilhamos. O anel de montanhas abre-nos um vale como porta de saída.
Chegamos ao verdadeiro momento de decisão e percebemos que até aí vivemos apenas para a procura. Entramos nessa porta que se nos abre para fora do deserto mas para algo que desconhecemos? Ou retrocedemos prudentemente (?!)
Imaginemos que aceitamos essa porta, essa nova vida e o desafio. As árvores cinzentas entre cruzam-se agora com o verde ainda envergonhado das primeiras palmeiras. Que as vão progressivamente suplantando em número. É já visível a neve no cimo das montanhas. E não sabemos se o arrepio súbito que sentimos é devido ás longas sombras que sobre nós a montanha projecta ou se é um dos últimos apelos do deserto que nos chama para o seu calor.
No palmeiral cada vez mais denso ouviu-se agora mesmo o o barulho ensurdecedor de um bater de asas da primeira ave e a aldeia materializa-se a partir da terra vermelha.
Daí o percurso é fácil: alcatrão e movimento que recebemos sem tentar interpretar.
Mas para a libertação do feitiço do deserto é preciso um voo. Seja ele o avião para Lisboa seja um golpe de asa poderoso e decisivo. Para sair dele mas mesmo assim ficar mais próximos de nós, com que no seu seio nos reconciliamos.
Do deserto sai-se devagar...
O Haman
Em Marrocos, final do ano de 2008. Trinta e um anos depois da primeira visita não se pode dizer que Marraquesh tenha parado no tempo. Antes que parou na história enquanto a minha fluiu. Éramos 4 na altura, dos quais apenas um resta. Mesmo esse tinha uma vida para cumprir mas voltou. Tão diferente mas ainda tão previsível como os encantadores de serpentes e os vendedores de água de trajos garridos na Praça. Fiz uma incursão pelos novos bairros, estilizados e quase elegantes, mas foi ainda e mais uma vez a Medina e a sua confusão que me atraiu. Entre as duas visitas corri algum mundo. Satisfiz algumas ambições. Cumpri algumas promessas e alguns desejos.
Voltei mais só agora do que quando eramos 4. A um. Quase o mesmo que a dois. Apesar do fluir da minha história algo nesse aspecto se mantém, não como praga ou maldição mas talvez como opção nebulosa. Como a deste retornar á praça e á Medina.
Mas o hotel agora tem um SPA. Sauna, massagem e Hamam. Hamam? "c'est un truc humide" explicam-me.
Pensei que tivessem algum problema com os turcos (vá-se lá saber entre árabes) e preparei-me para o tradicional banho de vapor. Ao abrir a porta não se me deparou, contudo, a tal nuvem que esperava. Apenas uma sala grande forrada a mármore, uns bancos corridos de pedra e uma minúscula fonte num dos extremos. Que subitamente começou a jorrar água quente. Desiludi-me momentaneamente: torneiras também tenho lá em casa. Mas cedo a água extravasou a pia da fonte e vai inundando o enorme chão de pedra. Ainda penso em chamar a massagista com a ideia de qualquer avaria muito comum por aquelas bandas. Mas á medida que a água me chega ao chinelos e começa a subir até ao tornozelo começo a perceber ou a julgar entender. Depois do deserto, da secura, da aridez a luxúria da água até ao desperdício. Será este estranho contraste que leva as pessoas a voltar aos mesmo sítios? O hamam como recompensa do deserto mas ao mesmo mesmo tempo ressuscitando pelo excesso o desejo de aí voltar? E já agora, será a vida algo que se vive entre 2 hamans ou apenas neles?
Voltei mais só agora do que quando eramos 4. A um. Quase o mesmo que a dois. Apesar do fluir da minha história algo nesse aspecto se mantém, não como praga ou maldição mas talvez como opção nebulosa. Como a deste retornar á praça e á Medina.
Mas o hotel agora tem um SPA. Sauna, massagem e Hamam. Hamam? "c'est un truc humide" explicam-me.
Pensei que tivessem algum problema com os turcos (vá-se lá saber entre árabes) e preparei-me para o tradicional banho de vapor. Ao abrir a porta não se me deparou, contudo, a tal nuvem que esperava. Apenas uma sala grande forrada a mármore, uns bancos corridos de pedra e uma minúscula fonte num dos extremos. Que subitamente começou a jorrar água quente. Desiludi-me momentaneamente: torneiras também tenho lá em casa. Mas cedo a água extravasou a pia da fonte e vai inundando o enorme chão de pedra. Ainda penso em chamar a massagista com a ideia de qualquer avaria muito comum por aquelas bandas. Mas á medida que a água me chega ao chinelos e começa a subir até ao tornozelo começo a perceber ou a julgar entender. Depois do deserto, da secura, da aridez a luxúria da água até ao desperdício. Será este estranho contraste que leva as pessoas a voltar aos mesmo sítios? O hamam como recompensa do deserto mas ao mesmo mesmo tempo ressuscitando pelo excesso o desejo de aí voltar? E já agora, será a vida algo que se vive entre 2 hamans ou apenas neles?
terça-feira, dezembro 23, 2008
Apenas Ficção (parte 3)
O tempo passou, cresceu, foi pai, mas não se fez homem. Como deve ser difícil lutar tendo apenas uma imagem de si próprio desvalorizada e ambígua em contraponto a outra que lhe serviu de forma.
Novamente errou nos propósitos e foi desajustado nos actos.
Novamente errou nos propósitos e foi desajustado nos actos.
A imagem a combater era forte? Não tem importância: desvaloriza-se e colamos-lhe diagnósticos. Por alguma razão tirou um curso de medicina não?! Isso criaria problemas deontológicos da classe que ao longo de 6 gerações os seus avós foram defendendo? Resolve-se! Assume ter nascido de geração espontânea. É difícil aceitar a honestidade nos outros? Nada de grave, reforça os traços de personalidade e desconfia de tudo e todos. Sobretudo de formas. De desconfiança em desconfiança voltou ao tontinho inócuo a quem todos davam uma moeda para o café. Que foi onde tudo começou. E foi onde ele terminou.
sábado, abril 26, 2008
É tão ténue a linha: último post- amigos até ao fim

É tão ténue a linha entre o saber e o ter a certeza...entre a paixão e o ódio... entre a atitude defensiva e a vingança desenfreada...entre o querer e o ser...entre a miragem e a realidade...entre o deserto e a Cruz de Celas...
Continua a sorrir ainda que de olhos fechados....a tua miragem sobreviverá em nós. E tudo fará sentido ?!
sábado, abril 05, 2008
A Viagem

Era uma viagem longa e cansativa que aproveitou para ler uma revista ilustrada, para tricotar um pequeno casaco azul e para se deixar embalar nas suas recordações, nos seus anseios e no futuro ser que a despertava com lentos, repetidos e fluidos pontapés dentro do seu ventre.
As paragens eram múltiplas assim como os pregões das vendedoras que lhe chegavam distantes, proféticos e intervalados….Água fresca repetidamente anunciada…barricas de ovos moles…arrufadas de Coimbra…
Finalmente o longo túnel que conduzia á estação do Rossio
sexta-feira, abril 04, 2008
Primórdios

Setembro de 1947
O Outono adiava-se num fim de verão sereno e prolongado. De uma pequena estação de caminho de ferro, forrada com painéis de azulejos ingénuos, azuis e amarelos, escutava-se já um arfar rápido e ritmado que anunciava á distancia a chegada do comboio. No cais uma mulher jovem esperava.
Daí a pouco esse arfar tornou-se mais lento, forte e sincopado logo abafado por um ranger de ferros e gemido de travões. Ao ruído juntou-se um nevoeiro de fumo cortado pelos relampagos das faíscas que saiam das sofridas rodas metálicas e da chaminé.
O comboio para Lisboa tinha chegado.
Alguém observava de uma janela próxima a figura daquela mulher jovem. Costas largas e direitas, vestido azul e comprido, cabelo negro com o brilho da noite. Enquanto o revisor ajustava o pequeno banco de acesso á carruagem de 1ª, a imagem agora de perfil deu-lhe oportunidade de ver uns enormes olhos castanhos e atentos e o perfil agradável do rosto. E o estado de adiantada gravidez.
sábado, janeiro 12, 2008
O novo livro do MST
O mínimo que se pode dizer, e já não é pouco, é que aprendeu provavelmente com as críticas ao primeiro. Já não matou levianamente nenhum personagem principal. Nem mesmo na guerra em Espanha. Mutilou-o. Apenas o suficiente para não lhe impossibilitar a caça ás perdizes. ((A propósito MST: há 80 anos atrás a última coisa que os caçadores discutiriam na véspera da caça seriam os choques das espingardas! Não havia quick-chokes imagine! Coisas de escritor e caçador recente)
Deve-se dizer em abono da verdade que se tornou mais inventivo nas cenas eróticas e na descrição das mulheres.
Mas a pobreza psicológica das personagens( deverão ser as que conhece) e das descrições ! Uma desilusão. A profundidade do que tem para dar é pouca.
Ressalve-se contudo o esforço educativo que faz para explicar aos menos eruditos algumas palavras, incluindo no texto verdadeiras notas de rodapé. Estes factos envolvidos em lugares comuns constantes fazem dele um escritor não muito mais elaborado que o locutor do telejornal.
Que desperdício este grande defensor das liberdades individuais perder 2 anos da sua vida fechado em casa para "parir um rato"
Deve-se dizer em abono da verdade que se tornou mais inventivo nas cenas eróticas e na descrição das mulheres.
Mas a pobreza psicológica das personagens( deverão ser as que conhece) e das descrições ! Uma desilusão. A profundidade do que tem para dar é pouca.
Ressalve-se contudo o esforço educativo que faz para explicar aos menos eruditos algumas palavras, incluindo no texto verdadeiras notas de rodapé. Estes factos envolvidos em lugares comuns constantes fazem dele um escritor não muito mais elaborado que o locutor do telejornal.
Que desperdício este grande defensor das liberdades individuais perder 2 anos da sua vida fechado em casa para "parir um rato"
Pré-reforma 2
Poder-se-á abdicar da emoção pelo risco, do protagonismo e do poder por um simples acto de vontade? Ou será uma racionalização antecipada do inexorável?
domingo, janeiro 06, 2008
Pre-reforma 1
Os dois carros aproximavam-se rapidamente da curva, lado a lado. O último a travar teria uma possibilidade de passar para a dianteira ou seguir em frente num despiste sem outras consequências que a perda da corrida e a ferida no orgulho.
O sobreiro cresceu ao longo de séculos. Outros mais velhos, que lhe faziam sombra foram pouco a pouco desaparecendo. Tornou-se então o ponto mais alto e de referencia naquela elevação de terreno.
O veado acabou a sua última luta dessa brama. Os adversários feridos e humilhados afastaram-se enquanto as corsas levianamente o seguiam até á profundidade da floresta.
Emoção do risco, protagonismo e poder. Inebriante, esmagador mas efémero.
Um dia o piloto travará mais cedo... o sobreiro ver-se-á ultrapassado em altura... e o veado encontrará o seu destino.
O sobreiro cresceu ao longo de séculos. Outros mais velhos, que lhe faziam sombra foram pouco a pouco desaparecendo. Tornou-se então o ponto mais alto e de referencia naquela elevação de terreno.
O veado acabou a sua última luta dessa brama. Os adversários feridos e humilhados afastaram-se enquanto as corsas levianamente o seguiam até á profundidade da floresta.
Emoção do risco, protagonismo e poder. Inebriante, esmagador mas efémero.
Um dia o piloto travará mais cedo... o sobreiro ver-se-á ultrapassado em altura... e o veado encontrará o seu destino.
segunda-feira, junho 11, 2007
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Uma Caçada ao Patos
CAÇADA AOS PATOS
O sol não emergira ainda, mal se adivinhando, por uma claridade difusa e fria o seu futuro trajecto. Do outro lado, num escuro impenetrável, o ruido inconfundível da marcha dos cavalos. Que só a curta distancia se materializam com o seu volume e o cheiro a suor e couro.
O esforço, já difícil, pé no estribo seguida daquela sensação de insegurança e excitação mas o corpo moldando-se quase atávicamente á sela e ao movimento.
Os primeiros passos, ainda em terra firme, em simbiose, guiados um pelo instinto outro pela confiança. Pouco depois o espelho de água, reflectindo as estrelas e a claridade difusa. E a modificação do som dos passos: o chapinhar esforçado dos cascos vencendo a lama, a água e a distancia. Os juncos altos em ilhas cada vez mais cerradas são contornados laboriosamente enquanto possível. O Hugo á nossa frente, vai desviando e liderando o pequeno grupo. Agora as ilhas de junto tranformam-se num imenso e negro plasma que vamos atravessando e que quase nos arranca da sela.
Pouco a pouco o pantano vai acordando. Primeiro um rápido e impreciso bater de asas de algo que levanta para logo se esconder. Depois um canto tímido quase envergonhado vai ganhando vulto e companhia até se tornar uma sinfonia imperfeita que nos envolve num abraço de vida.
Adivinha-se agora o nascer do sol por uma cor mais vermelha e por um arrepio de frio que atravessa o ar.
O cavalo mantem-se no seu ritmo irregular, quase dançando ao som da tal sinfonia imperfeita. Fecho os olhos tentando perceber se é sonho, ou mesmo tentando não acordar nem sequer entender.
A opressão no peito, agora benigna, apaga todas as outras de um passado muito próximo.
O ganso! O cantar do ganso...Ultrapassa no seu tom roufenho e algo ridículo todas as palavras, todas as dúvidas e todas as questões. Enquanto o primeiro raio de sol descobre uma lagrima no canto do olho.... Que com ou sem sonho, com ou sem dúvidas, medos ou perguntas o coração do pantano bate pelo meu, o seu som ritmiza-se ao sabor da paz, da tal sinfonia que de tão melódica se fez imperfeita.
Atravessamos agora uma vasta extensão de água, sem limites, sem obstáculos, sem luzes nem sombras.
E escuta-se o primeiro tiro.
O sol não emergira ainda, mal se adivinhando, por uma claridade difusa e fria o seu futuro trajecto. Do outro lado, num escuro impenetrável, o ruido inconfundível da marcha dos cavalos. Que só a curta distancia se materializam com o seu volume e o cheiro a suor e couro.
O esforço, já difícil, pé no estribo seguida daquela sensação de insegurança e excitação mas o corpo moldando-se quase atávicamente á sela e ao movimento.
Os primeiros passos, ainda em terra firme, em simbiose, guiados um pelo instinto outro pela confiança. Pouco depois o espelho de água, reflectindo as estrelas e a claridade difusa. E a modificação do som dos passos: o chapinhar esforçado dos cascos vencendo a lama, a água e a distancia. Os juncos altos em ilhas cada vez mais cerradas são contornados laboriosamente enquanto possível. O Hugo á nossa frente, vai desviando e liderando o pequeno grupo. Agora as ilhas de junto tranformam-se num imenso e negro plasma que vamos atravessando e que quase nos arranca da sela.
Pouco a pouco o pantano vai acordando. Primeiro um rápido e impreciso bater de asas de algo que levanta para logo se esconder. Depois um canto tímido quase envergonhado vai ganhando vulto e companhia até se tornar uma sinfonia imperfeita que nos envolve num abraço de vida.
Adivinha-se agora o nascer do sol por uma cor mais vermelha e por um arrepio de frio que atravessa o ar.
O cavalo mantem-se no seu ritmo irregular, quase dançando ao som da tal sinfonia imperfeita. Fecho os olhos tentando perceber se é sonho, ou mesmo tentando não acordar nem sequer entender.
A opressão no peito, agora benigna, apaga todas as outras de um passado muito próximo.
O ganso! O cantar do ganso...Ultrapassa no seu tom roufenho e algo ridículo todas as palavras, todas as dúvidas e todas as questões. Enquanto o primeiro raio de sol descobre uma lagrima no canto do olho.... Que com ou sem sonho, com ou sem dúvidas, medos ou perguntas o coração do pantano bate pelo meu, o seu som ritmiza-se ao sabor da paz, da tal sinfonia que de tão melódica se fez imperfeita.
Atravessamos agora uma vasta extensão de água, sem limites, sem obstáculos, sem luzes nem sombras.
E escuta-se o primeiro tiro.
domingo, novembro 19, 2006
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