sexta-feira, maio 13, 2016



“Aos quarenta e quatro anos continuo a sonhar com uma espécie de ternura essencial.»
(Roman Gary, A Promessa)
Teria 12 ou 13 anos porque frequentava ainda o Liceu Francês e vinha a casa de comboio nas férias. A minha mãe tinha-me dado este livro, junto com algumas insinuações e recomendações mais ou menos descaradas, sugestionando que aquela relação de mãe com o filho, tema principal do enredo, seria algo de exemplar. Ainda não percebi se anteciparia uma projeção de futuro –o desejo que o livro me influenciasse positivamente- ou se referiria ao então atual, não querendo que a leitura me transvertesse do bom caminho que seguia. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. Esta dualidade, da lógica incontornável e simultânea como a do sim e do não, um caminho ou o seu contrário, defendidos com a mesma convicção, encontrei-a na heroína o livro. Como já a tinha suspeitado na minha mãe. E como vim a encontrar em algumas das mulheres de quem mais gostei depois ( aqui que se lixem os psicanalistas mais ortodoxos).
Em que o sim será, por exemplo, uma tentativa manifesta de condução. E o não servirá para, se as coisas não correrem como desejado, não perder por completo o controlo da situação salvando a face e podendo sempre recomeçar na base inicial.
E revi-me na personagem mais jovem da história. Naquela paixão envolvente e bela mas que roça a dependência sem crítica nem limites. Que nos transmite uma noção de ternura e segurança mas que exige tudo em troca. O nosso pensamento, a nossa emoção mas acima de tudo uma grande parte da nossa conexão com o mundo. Um filtro do que se entranha e do que sai de nós. Exemplos no romance, e já agora na vida de algumas pessoas: o papel do pai, menorizado pela mãe, como ausente ou pouco importante na relação entre os dois. Mas Roman Gary ainda o caricaturou mais, descrevendo-o como fugidio às suas responsabilidades, um débil que morreu às portas da câmara de gás com um ataque de pânico.
“Tu terás que ser melhor que o teu pai, não porque queres, mas porque eu mereço”. Esta frase não é do autor mas poderia ter sido escrita em qualquer altura do livro. E nela pode encerrar-se toda uma mitologia que vem dos escritos gregos e que foi reabilitada em finais do século XIX. Uma mitologia e um equívoco ao considerar indispensável apenas a parte filial da relação. E a luta constante para alcançar espectativas que não são as nossas. Mas também aquela mãe impar que se sacrificava para além do concebível. O que só servia para fechar ainda mais o círculo de chantagem com aquilo que de mais puro existia nos dois corações e depois, a descida ao precipício da culpabilidade.
Não entendi, na altura da primeira e única leitura, os sintomas da luta do escritor contra este estado de coisas. A sua revolta parecia-me de uma ingratidão inqualificável. As suas fugas ocasionais de uma insensibilidade insuportável.
Dada a minha relação com os livros ( que qualquer dia explicarei se vier a propósito) quando quero reler uma obra tenho de a adquirir de novo.
Tal não aconteceu com “ A promessa”. A única leitura que fiz ficou-me impressa nos circuitos da memória e da emoção. À medida que eu ia crescendo e ganhando autonomia, as sensações que evocavam estas memórias passaram por vários estadios. Depois de ser “o livro da minha vida” passou a um teatro vivo do que não queria ser. Depois odiei-o visceralmente. Só depois o entendi na sua genialidade e foi apenas quando compreendi, por fora digamos assim, a parte importante da vida que o Autor aborda.
Mas uma dedicada e controladora mãe como a de Roman não fica por aqui. Pretende, talvez muito licitamente, prolongar a sua presença para além da ausência física.
O ter escrito e datado uma série de cartas para que o filho não se apercebesse da sua morte é disso um exemplo e uma das partes mais comoventes da literatura atual que tive oportunidade de ler.
“Aos quarenta e quatro anos continuo a sonhar com uma espécie de ternura essencial.»
escrevia ele enquanto observava os pássaros ao pé do mar...
Numa associação talvez não muito evidente de ideias lembrei-me subitamente de um texto de Coimbra de Matos, escrito num obscuro jornal médico da década de 70 ou 80 em que fala do fim da psicanálise de um neurótico que aparentemente já se tinha apercebido de todos os mecanismos que condicionavam a sua doença.
- “ Mas de vez em quando ainda sinto os dedos dela acariciando-me a nuca...
- “Isso são os dedos da morte” Vociferou o terapeuta.
Talvez sejam. Mas mesmo aos 68 não há doçura que se lhes compare...

terça-feira, maio 10, 2016

Em quantos dias se cria o mundo ?
Foi numa década de descobertas. A terminar um estágio em Londres, as notícias do País chegavam-me distantes e só a custo conseguiam ultrapassar a névoa emocional em que a aprendizagem da Neurologia me entorpecia.
A inevitável entrada na realidade aconteceu só depois da aterragem do regresso, e terá sido decerto bem menos suave.
As barricadas e os controlos de identificação prolongaram ao infinito a viagem do aeroporto até Coimbra. Mesmo assim insuficiente para tentar interiorizar o que me esperava e o que de mim seria exigido.
Com a ponte de Santa Clara já à vista, a última barricada. Por um instante os olhos procuraram o refúgio intemporal da torre. Percorreram depois a multidão, algo indistinta à luz de uma madrugada que se adivinhava quente como foram todas as de fins de julho de 75. Que ocupava a estrada, num apelo à nova realidade. Lá estavam de facto alguns colegas e amigos de outras ( ou seria a mesma?) luta(s). Do luto académico, da greve aos exames. Até dos piquetes de greve. O problema é que também lá estavam os outros em feliz e inimaginável confraternização. Os medrosos e os oportunistas. Os profissionais e os teóricos. Os sonhadores e os medíocres. Os da União Nacional e os anarquistas...
Percebi como era fácil, para muitos, escolher o lado da vitória consumada mesmo que à revelia do que até então defendiam. O prazer de uma liberdade ansiada diluiasse-me numa aprendizagem custosa da natureza humana.
E foi trauteando mentalmente
“Oh my name it is nothin'
My age it means less
The country I come from ...
(sempre Dylan, tão presente como um evangelho) que me dei ao prazer sádico e oportunista de lhe modificar a letra do último verso :
“with God in our side we”ll start the next war” .
Com esta falta de confiança nos homens e esta canção amarga na garganta subi a colina acostumada de acesso a uma casa e a uma cidade que já quase desconhecia.
Foi pouco depois que O conheci pessoalmente. ( E se uso aqui o O maiúsculo tal não se deve a qualquer endeusamento mas sim a uma singela homenagem. Era assim que nos seus livros se referia ao próprio Pai – o biológico, simples, sensato, emergência natural, telúrica diria ele, da própria aldeia de penedos, urzes e torgas - e não outros pais mais colectivos e divinos em que não acreditava).
Essa parte de uma convivência que nunca poderia ser suficiente, as histórias e as palavras, mas sobretudo a sua influencia em mim contarei com a fidelidade que aprendi, se tal se proporcionar e se a tanto me ajudar a memória e a emoção.
Começamos apenas com 3 coisas em comum; a medicina, um amigo (homónimo no nome e conterrâneo no nascimento) e claro a caça...
As SO2
Escrevia, num dos seus livros, que gostava de caçar com quem dele soubesse apenas que era “ rijo de perna e esquerdino a atirar”. Foi pois com corrosiva ironia que viu os seus acompanhadores naquela distante manhã, no meio de um Alentejo mais quente e mobilizado do que habitual, num terreno que era ainda cinegeticamente livre- a res nulla latina- onde a caça não tinha dono e se circulava livremente ao sabor da resistência e do voo das perdizes numa irrepetível sensação de liberdade, foi nessa manhã dizia eu, que ele notou que tínhamos umas espingardas novas. E o seu nariz adunco parecia preceder e orientar o olhar com que as examinou ao pormenor. Não se pareceu deter na elegância da forma, estilizada como só os italianos conseguem. Nem mesmo nas gravuras perfeitas, com imagens de aves desenhadas ao pormenor de penas. Nem na madeira de nogueira com as suas ramificações e nós que são o mais próximo que o mundo vegetal consegue chegar-se à arte.
Era de facto uma arma acima das nossas posses. Que só lográmos adquirir numa época em que tínhamos um 1º ministro protegido por uma muralha de aço de opereta e que, por temerosas razões, eram vendidas ao desbarato.
E aqueles laivos de pronuncia transmontana, que depois de tanto mundo remanesciam ainda naquela voz, deram relevante impacto a uma critica mais destruidora do que as SO2:
- “Mas digam-me lá, essas armas tocam campainhas quando acertam nas perdizes?”
Como muitas outras vezes não tivemos resposta na ponta da língua. Tentei pelo menos demonstrar durante esse dia que, se não era esquerdino a atirar, pelo menos tinha mais perna que língua e mais pontaria do que alguns companheiros desejariam. Mas de facto não ouvi campainhas...
Na viagem de regresso, que demorava horas, vim propositadamente a tecer louvaminhas à serra dos Milhafres, ao uivar dos lobos e a Aquilino perante um silêncio que interpretei como aquiescente. Foi já com as ruinas do castelo de Penela à vista que rompeu o longo, e por certo menos brilhante que entusiasmado monólogo.
- Pois, terás razão em algumas cousas, mas já notaste que ele põe o pastor a falar da mesma maneira que o bispo?
Novamente não tive resposta à altura. Nem sequer me lembrei do Malhadinhas e da sua história de violação e morte. Mas a inquietação lá ficou, como uma cicatriz antiga, que se fazia sentir cada vez que me apetecia voltar a ler Aquilino...
Algumas outras caçadas tivemos nos anos que se seguiram de progressivo despovoamento cinegético e desencanto.
Visitei-o no seu leito final num hospital que fica aqui em frente mas nunca mais foi o mesmo. Os medicamentos e os efeitos remotos da doença que o consumia retiravam-no por vezes do mundo da realidade.
- “O Sr. Dr. lembra-se de mim?”
Perguntei sem esperança. Os olhos abriram-se-lhe com o mesmo brilho que nos trespassava o corpo e nos entendia as emoções. Como certas palavras dos seus livros.
- “Lembro. Do teu grupo de caça eras o menos mau”.
Mas as últimas palavras que dele ouvi foram um pedido que só um caçador entenderá na forma e sobretudo na essência. Que quando atirasse a uma perdiz de “bico a baixo” -as que voam do cimo da serra com asas semicerradas a uma velocidade estonteante e com um zumbido quase balístico - que me lembrasse Dele. Como se alguma vez o tivesse esquecido! Os seus olhos quase se tornaram humanos e vi que se tinha refugiado nas recordações que amava. Saí lentamente sem quebrar o encanto e com as lágrimas correndo.
Mais tarde, e se vier a propósito, contarei como me desenvencilhei deste pedido. Afinal era o “menos mau” do meu grupo!
As verdes colinas de África
Hemingway poderia ter sido um escritor influente na formação do meu mundo. Era caçador. Aventureiro. Ensinou-me que há ocasiões em que a terra treme para as mulheres que amamos. Tomou partido pela República na guerra civil espanhola. “Por quem os sinos dobram”, lido numa adolescência muito precoce, evocava uma liberdade e uma bravura a que não tínhamos acesso. Tal como a coca-cola e por isso se tornavam apetecíveis. Depois, com o alongar da vida, aprendemos que há liberdade e sabores muito para além das matrizes e dos lugares comuns. Que nem sempre agradam mas que não desiludem porque não se espera que sejam sempre monótonos e iguais. Mas, concedo. Foi para mim um livro importante mas datado na minha cronologia.
Recordo também o dia em que comprei as “verdes colinas de África”. O aspecto da capa. A sua cor e o seu cheiro. E antecipei uma leitura no mínimo deleitada. A desilusão começou nas primeiras páginas. A constante propaganda da sua erudição, citando clássicos e contemporâneos normalmente para os denegrir, gerou-me certo desconforto e, ainda mais irritante, interrompia inutilmente a fluência das aventuras africanas que eu procurava. Mas os últimos rombos vieram da relação com os seus outros personagens. A companheira , creio que se chamava Mammy, era uma espécie de enfermeira e empregada para todo o serviço e dificilmente sentiria alguma vibração a não ser que houvesse algum fenómeno sísmico, que de resto são pouco comuns naquelas zonas interiores de África. Mas o pior era a relação com o seu companheiro de caça. Um misto de competição e inveja. A inveja é um assunto a dois e se incluísse a Mammy seria ciúme. E isso ficaria entre eles e com o romance. O que não seria grave nem sequer original. E também nada me move contra a competitividade em quase todos os campos. O que me perturbou foi a sua transferência para a caça, em que cada momento tem a sua existência única e irrepetível. É afinal de morte que falamos. Massifica-la numa competição é a verdadeira antítese do espírito cinegético que nunca será um desporto como os outros. É a sua negação histórica, social e psicológica. No meio de tantos escritores que cita esqueceu-se de ler alguns mais antigos franceses por exemplo, com os seus códigos de conduta que excluiriam vergonhosamente, logo à partida, o Hemingway dos seu grupos. Ou Henrique Galvão e o seu amigo Pratas nos planaltos do sul de Angola. Exemplos de amizade sem limites, confiança e admiração mas sobretudo um entendimento, respeito e amor pela natureza. (havia ainda outro amigo cujo nome não recordo: estou a citar de memória e isso deve-se à minha relação com os livros que um dia, se vier a propósito e tiver coragem, explicarei).
Mas pelo menos serviu o livro para aprender que havia colinas verdes em África. Normalmente associamo-la a deserto, floresta e savana. E neste ponto específico Hemingway tem razão. Há em África colinas verdes de uma beleza impar. Colinas dobradas e multiplicadas ao infinito como num jogo de espelhos. E de um verde de envergonhar os Açores ou a Irlanda.
Tive ocasião de as ver a sudoeste de Durban. Onde de resto cumpri uma promessa e considerei concluído o último dia da criação do mundo, como contarei se calhar em caminho e tiver oportunidade.
O último dia da criação do mundo
Os primeiros dias de caça decorreram em Bloemfontein bem no centro da África do Sul há 2 ou 3 anos atrás. Cheguei no meio de uma tempestade de areia que sacudia o pequeno avião e tirava quase por completo a visibilidade. Era uma região de agricultura de sequeiro, como diriam os meus compadres alentejanos, em que rolas e pombos (red eye pigeon) causavam um estrago considerável. A nossa presença foi assim motivo de alguma satisfação para os proprietários mas mais ainda para os miúdos das aldeias vizinhas que no fim efetuaram o cobro mais sistemático e inteligente que já vi em alguns continentes que visitei. Nenhuma fonte de proteína se pode desperdiçar naquelas paragens. E aqueles rostos felizes no regresso a casa contagiaram-me.
Passados mais alguns dias fizemos um voo curto para Durban. E então vi as tais verdes colinas de África. Depois de uma divertida e pouco habitual caçada com negaça aos gansos, algo enganadores na sua aparente lentidão, fomos então às perdizes e aqui começa a parte da história que lhes queria contar. Nas tais colinas. Eu e um americano, 2 fabulosos e bem tratados “pointers” e 2 guias. O Leonard escolheu a cumeeira e eu a meia encosta. Começamos a caminhar naquele terreno dobrado e de vegetação verde, ora como um tapete, ora mais alta e densa ao ponto de nos dificultar a marcha. Os “pointers” percorrendo todo o terreno à nossa frente naquele galope controlado que lhes é característico. A paisagem, os sons e os cheiros eram avassaladores e quase esqueci a razão porque ali me encontrava.
Súbita e simultaneamente os cães paralisam-se em posições inimagináveis. Como estavam à frente do meu parceiro e eu cerca de 200 metros abaixo, parei para apreciar o lance. A perdiz não aguentou muito tempo a paragem. Arrancou num arrepio de som e de reverberação de asas amplificado pelos declives de terreno e o eco das colinas. Ouço dois tiros precipitados do conterrâneo do Hemingway que apenas provocaram uma curva ampla da perdiz que agora vinha descendo nitidamente na minha direção, ganhando velocidade. Preparo-me sem grande esperança para um “coup de roi” na vertical, tiro difícil como se percebe. Mas seguindo a curvatura do terreno faz mais uma manobra rápida. A trajetória passar-me-ia agora a cerca de 30 metros. Tentei fazer tudo certo como me tinha ensinado o meu amigo e campeão Paulo Cleto. O tiro ao voo é geometria pura e a posição do corpo permite assumi-la. Os pés bem virados para baixo do declive de maneira a poder rodar o tronco e a SO2 à velocidade desejada. O joelho esquerdo semi-flectido para entrar na linha descendente da ave e que, ao rodar, o ombro direito me descaísse convenientemente. Encarei a perdiz, medi-lhe a velocidade, acompanhei-a durante um ou dois batimentos cardíacos. Rodei ainda mais depressa. Esta era mesmo de “bico a baixo” e via-lhe já todos os pormenores da cor e da forma e adivinhava a potência dos seus músculos. Adiantei a arma 1 ou 2 metros à frente da perdiz e aumentei ainda mais a velocidade de rotação. (Não se pode apontar ao alvo nesta caça. O tiro tem de ser disparado para a frente para o sítio onde a ave estará quando o chumbo lá chegar). E disparei..
Em plena terra Zulu disseram-me que os feitiços e magia são frequentes, mas eu não acredito.
Apreciei ainda aquele flash de suspensão e de surpresa...um intervalo de paragem do relógio em que o tempo é só nosso. E a perdiz começou a queda para o solo enquanto algumas penas iam marcando o seu caminho no espaço. Lembram-se do livro de Nicholson Baker, La Fermata, em que ele era capaz, desde a infância, de parar o tempo dos outros enquanto ele se movimenta a seu belo prazer ?(neste caso uma palavra bem adequada às atividades a que se dedicava). Pois bem ter-me-á acontecido o contrário. O meu tempo parou.
Vi os penedos de granito que pareciam querer prolongar a terra. O tom cinza e sacrificado do mato. Algumas estevas com o seu odor inconfundível. Um pequeno rio que corria inquieto lá em baixo. Algumas leiras de centeio. Um sino perdido na distancia e no tempo repicava com a alegria de um casamento com a natureza ou de um batizo de um renovo.E num bloco enorme de granito, quase confundindo-se com ele com as suas calças de cotim e velha camisa desbotada, arma em posição canhestra, o perfil algo recurvado e longilíneo , vi-o. E pela primeira vez sorria, com dentes sadios mas gastos de tanto remoer a vida e triturar as palavras que ele sabia fazer repercutir nas serranias e apanhar-nos inteiros na sensibilidade.
-Doctor Cunha...Doctor Cunha are you feeling OK ?
Perguntou-me o preocupado guia que reapareceu no meio do verde e das colinas trazendo-me na mão a perdiz e com os dois cães atrás.
-Never felt beter .
Ouvi-me a responder numa voz ainda remota.
- Shall we go on Sir ?
Como são educados os Boers...
- Indeed I already got what I was looking for.
Respondi alisando cada pena em desordem da perdiz e pendurando-a à cinta.
Descarreguei a SO2, coloquei-a como um colar à volta da nuca e desci da colina aos saltos como fazia há 40 anos atrás, nas poldras do vale do Côa ou na descida da Santa até Marialva.

quarta-feira, maio 20, 2015

Aprendi ao longo dos anos a gostar de palavras como metamorfose, primavera, renascimento, renovo, rebento, brote, vida e saltos de continuidade. A aceitar palavras como outono, amadurecimento, maturidade. limitação  e fim.
A desprezar palavras como verão, retorno ao passado,esquecimento...

quinta-feira, março 19, 2015

here we go again. mesmo quando sucede o inevitável, o esperado e até desejado é sempre difícil provar o seu próprio veneno. apenas um passageiro ferimento no orgulho narcísico que terminará num grande alívio

segunda-feira, abril 01, 2013

Há anos iniciei este blog num momento de descoberta da vida e de um tipo activo de solidão. Soube-me bem partilhar algumas experiências, exorcizar alguns pensamentos, definir algumas sensibilidades.Agora consegui, apesar de erros alheios e próprios, um dos objectivos, que me parecia bem longínquo nessa época.Sinto um pouco de orgulho, alguma nostalgia e uma enorme paz como só se sente quando se cumpriu uma parte importante do nosso destino.

domingo, abril 22, 2012

story of the hurricane ou New Orleans revisitada

Ha sempre uma melancolia em cada regresso, em cada repeticao. Por vezes ve se a mesma coisa depois de uma tempestade que nos assolou internamente. Para confirmar, para esconjurar, para negar ou para descobrir. Noutras o desastre sera externo, distante. E as mesmas coisas mudam. A musica que se escoava pelas aberturas das portas e janelas e nos emprestava africa e saudade...o ruido artificial e turistico de hoje...a seducao discreta substituida pelo convite desbragado e fotografias explicitas...O furacao nao inundou a cidade....apenas apagou a alma.

terça-feira, janeiro 31, 2012

os homens que não gostavam de mulheres

Não guardou na sua memória qualquer recordação desses dias. Muito menos da desconhecida sensação de prazer que como um éter incerto a acompanhara.
Toda a sua vida tinha sido de evitamento e defesa. Físico primeiro. Depois emocional. Depois transformou-se numa sobrevivência isolada e sem cedências.
A enorme quantidade de informação que lhe passava pelo cérebro não tinha despertado até aí nem rancor nem paixão. Apenas se ajustava num sentido lógico e matemático. E nesse momento único de auto-indisciplina conheceu um nauseante flash de ciúme. Não tinha completado a metamorfose. Foi apenas um pesadelo...

domingo, setembro 18, 2011

Sarah Westphal

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase

sexta-feira, setembro 09, 2011

antecipação e frustração

se a antecipação é essência remanescente do humor, a frustração da perspectiva do que antecipamos gostosamente é um luto. negro como todos os outros. o perfume do que não persiste. o sonho que não se concretiza. será que a vida saltita de antecipação em antecipação? procurando a pequena suja que come chocolates e saltando por cima da filha da lavadeira?

quinta-feira, setembro 08, 2011

quarta-feira, setembro 07, 2011

o mundo entre citações e a reserva

abordei há dias, aqui, o que acho do mundo, da vida, protegida por citações e os estados de espírito induzidos sobretudo na evocação dos poetas. pensei que fosse apenas uma maneira de viver, indigente, plagiosa e sem riscos. Entendo agora que pode servir também para a preservação da intimidade, da identidade própria. uma máscara portanto. nada de mais dirão se do outro lado estiver outra ... máscara contra máscara...estilizada, porcelana de Veneza pode ser...seda tailandesa talvez...
mas será que através da máscara própria se poderá conhecer um rosto autentico?

terça-feira, setembro 06, 2011

here we go again...

não sei bem quando surgirá a primeira desilusão. talvez quando se nasce para um mundo menos acolhedor...ou quando não nos escolhem para jogar futebol na equipa da rua...ou quando aprendemos que podem dizer mal de nós...quando pela primeira vez sentimos que não somos o centro de tudo...
sei no entanto que continua depois no desapontamento, no esfumar de expectativas que temos em relação a quem gostamos..por vezes até á agonia da traição e da rejeição...
também imagino que, nós próprios, não ficamos iguais..olhamos mais penetrantemente...ouvimos com mais reserva...sentimos com mais contenção...
pode surgir depois a evolução para a descrença e para o cinismo...não acredito em nada...não vou confiar em ninguém...não vou sentir... nada me magoa... Alguns aí permanecem solitários de opção, apreciando o mundo tranquila e pausadamente como se não lhe pertencessem.

http://www.youtube.com/watch?v=RKGXzMIAr40

sexta-feira, setembro 02, 2011

intelectuais e a escolha

As Benevolentes foi um livro que me marcou. Nas primeiras cem páginas a coragem para abordar a seguinte vinha apenas de saber que tinha a liberdade de desistir. Por obrigação li talvez meia dúzia de livros. Do Saramago? seguramente. Do Paulo Coelho? tambem, o mais pequeno. Do Sousa Tavares. SIM, os dois. Gosto de não gostar porque conheço, não pela sedução de criticas e pelos must.

Vinha isto a propósito de alguns intelectuais a sério que utilizam adequadamente várias linguas para procurar a expressão mais precisa e rebuscam os livros à  procura de alguma frase a que vagamente possam adaptar um estado de espírito tido por mais conveniente. E assim se auto-perpetuam. Repetem mas não inventam.
É tão segura a vida no meio de citações!

sábado, agosto 27, 2011

regresso a Roma

as ruinas, a cultura, a luz e as mulheres. Património mundial da humanidade...

quarta-feira, junho 22, 2011

Elos

A vida é constituída por uma serie de elos contínuos que até que surja alguma rotura mais definitiva se vão juntando numa cadeia nem sempre lógica. Um desses elos começou numa data imprecisa de Fevereiro. Na altura em que G….. me convidou para um mate. Diz-se, nesta parte da América do Sul, que as amizades não se fazem bebendo leite. Este seria, dizem com humor ferino que os caracteriza, mais uma questão de amor. Não,  as amizades, acreditam com convicção, começam com o vinho ou equivalentes locais mais fortes e destilados. E claro, acima de tudo com o “mate”. Essa erva, outrora espontânea, cultiva-se agora em enormes quantidades e a infusão a que da origem toma vários nomes. Quente no Rio Grande do Sul onde toma o nome de chimarrão. O mesmo exactamente que atravessando a fronteira para a Argentina de transfigura no mate que falávamos. Tal como no Uruguai e Paraguai. Neste ultimo pais, e no tempo do calor, blocos de gelo substituem convenientemente água quente .
Mas muito mais importante é o ritual que origina. Exige uma serie de instrumentos tradicionais em que os globalizantes plásticos são mal aceites. Recipiente de vidro para guardar a erva. Depois a ponta de um chifre trabalhado para, a maneira de uma pá, verter a quantidade precisa de erva para o recipiente: uma arredondada abóbora oca  que ergonomicamente se ajusta a qualquer mão. Debruada a metal, frequentemente prata, não porque seja absolutamente necessário. Mas todas as liturgias a usam. Depois, e como parte última e essencial, a 'bombilla'. Um tubo do mesmo metal, com as curvas que a pratica foi ensinado, trabalhada com os enfeites ditados pela imaginação ou bolsa do gaúcho.
Mas o verdadeiro ritual só começa mesmo  quando a agua com  a temperatura certa se vai juntando, com a técnica e experiencia adequada. O que convida é o primeiro. Prova, dá o seu parecer e volta a 'cevar' para o companheiro seguinte. A cabaça passa assim de mão em mão e a bombilha de boca em boca. Uma partilha sem reservas que rapidamente se transfere para as palavras, sentimentos e recordações. E estas começaram devagar entrecortadas pelos intervalos proporcionados pelo cerimonial do mate e pelas nossas próprias memórias que íamos comparando
G…… era um filho de gente do campo e de trabalho. Dominavam de maneira absoluta e feudal as centenas de milhares de hectares e umas centenas de encarregados e peões sobre os quais o seu direito era quase divino e incontestado.
Berço de ouro no meio do deserto verde das terras… perto do mar e das areias brancas…cavalo desde que deu os primeiro passos, arma de defesa aos 5 anos que a terra não era fácil…bicicleta e barco á vela numa ria de horizontes que pareciam amplos…mas que eram menores que um dos lagos da sua “estancia”…automóvel aos 10 anos, avião privado aos 18, estudos em Londres num curso de gestão agrícola…faculdade de medicina em Coimbra… azares da vida, do jogo e da finança que o atiraram para uma vida difícil á beira da ruína…os progressivos exames das carreiras…a coragem para combater, para recomeçar, os limites da legalidade e a chegada ao desafogo quase ostensivo  de antigamente…a ascensão ao topo das carreiras. Vareiro e Correntino assim se encontraram “mateando” pachorrentamente enquanto aos pés, rápidas mas tranquilas as águas contornavam a “vuelta del Pirata”antes de novo se lançarem, algo metaforicamente, na imensidão do rio Paraná.
Quando tudo se compôs, quando a sua vida entrou de novo na rotina algo se esvaziou como numa promessa cumprida…como numa viagem terminada…como alguém que olha com estranheza, agora com tempo, aquilo que o rodeia há anos mas de que não se tinha apercebido. Mas um homem não deprime, não chora. Sente mas resiste. Sofre mas segue. Não lhe apetece mas vai. O corpo contudo é mais frágil e rebenta em erupções na pele que tanto resistiu às intempéries da vida exterior.
E assim se cruzam, de maneira fortuita e improvável  a doença psicossomática e o médico. E o “mate” continuou a correr, agora entre a explicação dos mecanismos e a sugestão terapêutica.
Quatro meses se passaram sem qualquer outro contacto. Que a amizade e confiança resistem  tanto ao tempo como aos oceanos e aos continentes.
Há dias repete-se o ritual. O mate, a paisagem. Mas o simbolismo da pele crua e lisa do cinto gaúcho, com fivela de prata trabalhada e com as iniciais, que me ofereceu, foi um daqueles momentos de ternura, que alguns homens, que já tenham discutido mulheres, se permitem.
Como os que lerão esta estória G…… não gosta de caça. Por isso o convite para caçar num campo virgem de 3 gerações surpreende-me e emociona-me.
Havia lá um encarregado, gaúcho bravo de espetar 3 homens que acrescenta mais um elo á cadeia. E assim começará a estória do señor Aranda.

terça-feira, janeiro 18, 2011

espuma inconsequente dos livros que li

Num deles, há muitos anos, li que numa planície gelada o verdadeiro perigo era o vento. A neve pelo contrario protegia e envolvia como um manto.Como a solidão e o esquecimento...

quinta-feira, dezembro 09, 2010

segunda-feira, novembro 15, 2010

sábado, novembro 13, 2010

sexta-feira, novembro 12, 2010

comparar para quê?

eu gostava de escrever com palavras como franja, limbo, remanescencia, estruturante, displicendo, paradoxo, fibras, essencia, alma. mas para que tivessem algum significado teria de lhes juntar outras bem simples..., Já compararam um texto dos velhos contos de montanha, a força da palavra que ressalta na nossa emoção antes que se consiga alcançar o seu significado?
Mas comparar com que?

segunda-feira, novembro 08, 2010

Uma imagem só por si pode dizer-nos se é documental ou ficcional, ou melhor, ficcional ou não-ficcional?

Há, penso, pelo menos 3 factores a considerar. Primeiro, a prespectiva do autor da imagem. O segundo, a interpretação de quem a olha. Finalmente há o evento em si que se retrata.
E os dois primeiros factores são altamente subjectivos. Dependem já de um preconceito, de uma experiencia prévia, de um imaginário. Dadas estas variáveis que condicionam o olhar do autor e do espectador, será então difícil que coincidam. Nem sei mesmo se sera desejável esta uniformização interpretativa em vez de deixar em aberto muitas outras possibilidades de escolha e interpretação. E por último há a realidade, que se pretende documentar, e é sempre complexa.
Serão o facto, ou a situação, enfim a realidade que se pretende retratar, concretos, objectivos ,matemáticos? Imutáveis? Penso também que não. Para nos apercebermos da realidade do objecto ou da situação necessitaríamos de uma abordagem lógica, exaustiva a esse objecto ou situação. Com todos os ângulos, luzes, movimentos, análises e interpretações. Com muitas repetições, ensaio,  intrumentação adequada, erro e correcção. Como o método de estudo de uma ciência empírica. E mesmo aí concluiriamos, na maior parte das vezes, por probabilidades e não por certezas. E, para passar desta probabilidade á regra teriamos sempre de teorizar. E a teoria é, em si propria, subjectiva. Como um circulo viciosoPenso que nenhum de nós se interessaria por um documentário destes em que todas as confirmações teriam de ser documentadas. Cada passo provado. Poderia eventualmente, uma dessas “reportagens” agradar a um especialista dessa area. Mas difilmente seduziria uma pessoa que procura para alem da evidencia.
Vejo apenas duas saidas. Ou consideramos tudo como virtual e interno vivendo apenas na nossa imaginação como num conto de Borges. Ou consideramos que os grandes factos, e os pequenos, que vivemos, teem em nós uma ressonância emocional primária antes de serem integrados conscientemente no nosso conhecimento. A emoção antes da consciência. Proponho ao documetário, que um dia consiga fazer, o papel de provocar esse estado emocional. E deixar a cada um dos espectadores a sua interpretação e diluição dentro das suas vivencias e dos seus sentidos. É assim afinal que gostaria que nos fossemos criando e desenvolvendo, num clima de liberdade interpretativa.

sábado, outubro 09, 2010

puta que os pariu!

de regresso do Alentejo. onde estão as perdizes de antigamente, bravas, relampagos de força e beleza que fixavam todo o esforço de quilómetros de perseguição num flash mais viciante que qualquer droga? onde está o casaco,  comprado a um hippie rasgado depois pelas passagens apressadas pelo arame farpado, que fazia parar mercedes para pedir ao tiozinho (eu) " venda-me aí umas perdizes"?
Agora as perdizes veem do aviário.A roupa é "patagónia" ou "holland and holland". Conduzimos nós os mercedes.Ao almoço,  chanel e avène substituiram o cheiro a tanspiração e a mato.

quinta-feira, outubro 07, 2010

msn

madrid, roma, budapest, paris, barcelona
O voo da borboleta do msg ultrapassa largamente a formatação da microsoft.
Mas a borboleta é apenas intemporal e cedo se transformará em larva. Não pela evolução. Apenas pela mentira. Do concerto dos U2 só ouvi a parte  que dizia "without you". Um alívio que se materializou em "singing in the rain".

quarta-feira, setembro 15, 2010

FIM...

nada faz sentido  neste blog. nem o nome nem o contéudo.

Teve interesse apenas quando dele precisei...ao contrário do que deveriam ser os amigos

sexta-feira, agosto 27, 2010

A máscara da realidade

Algumas vezes aflorei aqui a questão do desejo. Menos foram as vezes que me preocupei com as questões de ressonância, aceitação ou rejeição social inerentes á sua satisfação. E no entanto elas existem e motivam disfarces, dramas e até religiões que partem do fruto desse desejo para o condenarem. Hoje lembrei-me da história do boto e reconciliei-me, em parte, senão com a hipocrisia pelo menos com o mais puro dos disfarces que encontrei.

Foi há quase 7 anos. Necessitava de uma pausa para uma tempestade que me perseguia e á qual resistia activamente. Fui parar ao Pará, á Amazónia seminal, quente,viva.
E conheci os filhos do boto. Golfinho de beleza e cheiro irresistíveis para qualquer mulher. Que indefesas e desbragadas se lhe entregavam. Sem culpa. Sem pecado. Sem consequencias para alem das fisiológicas e humanas.
Hoje dei comigo a pensar como uma máscara pode ser afinal aquilo que nos faz aceitar, compreender e enfrentar a realidade.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Nada se cria e muitas vezes nada se repete: a caminho do barranco com passagem por Santiago do Chile e Mendoza

O regresso ao equilíbrio e á rotina depois de experimentar novas emoções ou tentar reviver as antigas pode ser tão agradável e securizante como um regresso a casa.
Repetir é a ancora mas  inventar é a expressão crítica do nosso comportamento, são novos horizontes, virtuais ou não. Balança sedutora enquanto oscila. Mas é bom saber que a cada oscilação mais se aproxima da sua posição de repouso. Sempre pronta para novos desiquilibrios e desafios

sexta-feira, maio 21, 2010

Destino: Vuelta del Pirata

Depois do suor e do sangue o regresso tranquilo ao barranco . Antecipo as madrugadas frias e a cor do sol que nasce. O cheiro a pantano e a polvora. O sabor do mate e do assado. Assim,,,sem filosofias.

domingo, fevereiro 21, 2010


É tão doce o monótono mergulho na rotina...

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Burn de boats

A necessidade de seguir em frente quando não há alternativas não é um sinal de coragem ou de inteligencia, Apenas conformismo.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Je ne regrette rien...

Ni le bien que on ma fait
ni le mal...

Poderia ter feito tudo diferente e poderia ter feito tudo na mesma...

Talvez pudesse ter sido um homem diferente mas fui igual a mim próprio...

Poderia ter dobrado mas nunca fui capaz...

Muitas vezes teria sido mais fácil fingir mas a minha ironia nunca foi hipócrita...

Nunca consegui desistir de um desafio ou de me envolver até ao limite...

Para o melhor e para o pior nunca mudei...

Não quer dizer que me orgulhe. Mas tambem não sou capaz de me arrepender de ter sido eu.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

De que lado estou?


É normal e muitas vezes induzido. Veja-se um filme americano e todas as técnicas são válidas para nos fazerem identicar com um personagem. Recordemos o sonho do que queriamos ser e é bem possível que nos surja uma figura concreta de um personagem longinquo. Num livro, num jogo de futebol, numa teoria... Penso que vamos crescendo de transfer em transfer. Identificando-nos com aquilo que queremos ser mas permanecendo dentro daquilo que somos.
Hoje foi diferente. Na mesma sala antiga, simbólica e desconfortável, há 30 anos atrás, identifiquei-me com a mudança e enfrentei os vultos negros da tradição e da sapiência. Desde então passei a fazer parte integrante dele. Mas hoje foi diferente

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Ainda a reserva genética, agora da Mauritania

Onde ainda se practica a excisão...

Calibre


Foi mesmo esse... 19 gramas

Onde tudo se repete


le gibier a grossis...le chasseur aussi

Quando tudo começa


O nascer do sol

Humanidade


A memória dos nossos genes e as reserva genética
da humanidade

Senegal e Gambia



As boas vindas

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Profecias

"Her beauty caused Apollo to grant her the gift of prophecy. However, when she did not return his love, Apollo placed a curse on her so that no one would ever believe her ...".

E assim um nome ficou para sempre ligado á tragédia grega. Um dom que não se sabe ou não se pode usar. Apenas passível de metamorfoses inoperantes. Inútil quer na Grécia espartanna ou na bárbara península.
Só que... a mitologia e a história se repetem em círculos. Inexoráveis mesmo que se tente trocar de imagem, de tempo e de espaço. Um dia, tudo acabará na "tabacaria", deixando apenas no caminho "Esteves" perplexos e sem metafísica:

"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."

sábado, dezembro 12, 2009

Relojoaria

É sempre uma descoberta cada ida á Suíça. Mesmo como desta vez em que não saí do hotel do aeroporto de Zurich. A paisagem aérea com os vales e as montanhas que quase limitam a sobrevivência e a comunicação. Os lagos de contos de fadas. A eficiência em tempo certo, sem precipitações nem improviso. Alguns acham-na monótona e triste. Eu sempre preferi a complexidade simples de um relógio mecânico á exuberância de um de pilhas. Não se esgotam e vivem do próprio movimento e da vida.

sexta-feira, novembro 20, 2009

trutas y patagónia setentrional


o fim gelado e um vento vindo do infinito...

o princípio...


rusticidade da cabaña







a paisagem




Se algum dia voltar a passar pela minha cabeça um regresso a estas paragens estas imagens serão suficientes para fazer prevalecer o bom senso....

sexta-feira, novembro 13, 2009

segunda-feira, novembro 09, 2009

O estado onírico

As pessoas não são aquilo que aparentam. Nem sequer são o que gostariam de ser. São apenas emanações grosseiras ou sofisticadas daquilo que delas queremos que projectem. E assim o terreno fica delimitado para a actuação de um lado.Desnecessária face á voluntária cegueira do outro lado.
Em tempos julguei que haveria vendedoras de miragens. Hoje mesmo soube que sou eu próprio que crio a imagem e a vendedora. E isso é apenas quando não vendo as minhas próprias miragens.

terça-feira, outubro 06, 2009

Tributos

Há certas obrigações que se pagam com alguma revolta. Vide o IRS no meio deste continuado desbragamento fiscal. Outros com indiferença como uma portagem. Ainda alguns com gosto, como o tomar conta de um amigo. Mas dei comigo ontem, feriado, a comprar queijo magro, feijão verde, formas luso...com prazer. Só depois percebi que estava a pagar o tributo á minha liberdade.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Aos dezassete anos acabados de fazer

Viajava-se numa linha aérea canadiana, hoje inexistente, até uma ilha mais pequena e seca que tinha por despojo de guerra uma extensa pista. Depois dormia-se num clube com asas, rádio e atlântico. O serão foi passado no cinema dos bombeiros a ver um filme já nessa altura antigo mas que a memória retém: Barrabás.
No dia seguinte, com alguma sorte, apanhava-se um pequeno avião que mal suportava o peso de um piloto obeso quanto mais dos seis passageiros que o podiam acompanhar desde que não levassem muita bagagem. Aterrava-se depois numa pista de pasto, não antes de uma passagem rasante para afastar as vacas que aí ruminavam placidamente, e atingia-se a ilha maior e mais verde.
Chegou com os olhos deslumbrados e o cabelo ainda rapado pela praxe implacável. No tempo dos Beatles e aos 17 anos este débito capilar parecia inultrapassável.
No entanto, numa das numerosas festas que aproveitavam o natal e o fim de ano, conheceu-a.
Começou a perceber, surpreendido, que para o outro género pouco importava o cabelo de presidiário ou o sotaque diferente e que havia uma linguagem eloquente e universal que passava apenas pelo olhar. E que era possível uma relação que dentro de nós conciliava o desejo físico com aquilo que sonhamos. E o amor brotou com a força e arrebatamento da vegetação que lá existe. Límpido, inconsequente e puro como a água de uma lagoa.
As férias passaram e o regresso pelo mesmo, agora longo, caminho. Antes disso entendeu que o a linguagem dos olhos podia revelar ao mesmo tempo dor da despedida, paixão, satisfação e esperança. Só a ultima verdadeiramente infundada.
Voltou a vê-la esta semana. Muitos anos e muitas vidas passados. Mas o olhar lá estava. Sem recriminações nem esperança. Sem fogo. Mas com o reflexo das suas memórias e um sonho fugaz do que poderia ter sido.

100 metros



separam a porta do inferno da porta do paraíso

sábado, setembro 19, 2009

Ainda Veneza


"And there were times,

I am sure you knew

where I picked up

more than I could chew"



Morte em veneza?




Veneza, um postal na janela

Europa mediterranica (1)


Mónaco, principado das aparências:

Os soldados e o render da guarda são de opereta. As princesas não terão as virtudes dos contos, pelo menos dos infantis. O príncipe, se fosse sapo, preferira talvez sair do encantamento com um beijo barbado. E até o mármore do casino é cimento e madeira pintada

segunda-feira, setembro 14, 2009

O relógio do inconsciente

Tudo terá acontecido por acaso. Uma reunião de investigadores de um estudo de uma das numerosas drogas russas compradas por uma companhia ocidental. No Mónaco. A que se juntou o desejo, muitas vezes adiado, de conhecer Veneza. Outra reunião, da Neuronet, em Florença e mais uma distracção do destino. Não havia voos directos e o comboio perfilava-se como mais rápido e apropriado.

Tinha de aprender a viver com a sua doença. Que obsessivamente o obrigava a horários quase rígidos e a alimentação regular e equilibrada. Um cruzeiro parecia novamente uma opção razoável. Uma noite de mistral desde Civitavechia a Livorno e os balanços e rangidos do Funchal levaram-no a procurar refúgio num comboio para Florença. Ia inseguro da sua nova situação mas com companhia solícita e apaixonada.

As chegadas a Florença coincidiram no mesmo mês e no mesmo dia. Só disso teve consciência quando a gare se lhe ofereceu, não como descoberta mas como memória. Cada recanto, cada binário. O vagabundo ainda dormindo no chão. E o mesmo relógio que inexorável e quase milimetricamente tinha marcado 21 anos.
As lágrimas irromperam impiedosas e as recordações voaram para a cidade e para aquele quarto esconso com os telhados antigos por vista e os sinos a tocar. E pela primeira vez continuou a chorar as lágrimas que não tinha vertido, a fazer as despedidas que não tinha feito. Naquele lugar de partidas e chegadas encontrou o passado.

domingo, setembro 06, 2009

Os gestos e as intenções

Que significado terá para cada um a comemoração de uma data? Do aniversário por exemplo. Os cheiros da infância, o centro das atenções de um dia, a família, os amigos?
Este iria ser um dia de anos triste. Só e a milhares de quilómetros de casa, vivendo uma vida dura e sem rumo. Um convite algo inesperado para jantar. Onde encontrou um prato típico da sua terra natal. Um pudim com receita retirada da net. Um bolo com um número de velas já significativo para uma pessoa jovem. Um presente comprado á pressa mas com envolvimento.
Como se passa de um entusiasmo infantil até ás lágrimas engolidas com esforço num rosto brevemente feliz!
E como essa aparente metamorfose foi suficiente para o prazer de quem a olhava. Não teria pois de recorrer aquilo que as outras pessoas lhe costumavam exigir em troca.

sexta-feira, setembro 04, 2009

A fase de perda e o sindroma de vitimização

Chamaram-me a atenção para este texto. "A puta de merda"...Melhor é impossível. O grito da impotencia. Quem pode ganhar combatendo com armas tão desiguais?

segunda-feira, agosto 31, 2009

Meu querido mês de Agosto

Depois de o ter visto no grande ecrã e de, inutilmente, o procurar nos video-clubes e na net, chegou ao pequeno ecrã. Voltei a sentir o mesmo quase encantamento. A ruralidade genuína, por vezes mesmo boçal e autentica vista pelos olhos de um Lisboeta (?) sensível, e com os tics suburbanos que os caracterizam. E claro o mês de Agosto. Dos reencontros, do tempo, das paixões de fogo de palha, das noites em que não apetece dormir e claro, da música pimba. Talvez composta pelos suburbanos com a parte primitiva e campesina que não deixam de transportar.
Talvez seja mais fácil gostar que entender e explicar este país.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Volatilização

As mudanças de estado sempre me fascinaram. Do estado físico, lento e previsível, mas sobretudo dos estados de alma, mais rápidas na aparência.
Com a facilidade que o caçador se torna caça! Ou se não quisermos ser radicais, de como o caçador se torna um guardião atento das espécies que antes perseguia. E onde antes havia conhecimento mutuo e defensivo passa agora a haver cumplicidade e confiança. No mesmo espaço onde antes se defrontavam e desfrutavam muda-se para a protecção e a ternura.
Mudança de estado de alma. Sublimação em sentido físico, passagem directa de sólido a volátil.

terça-feira, agosto 25, 2009

A última

Dizia David Lodge num dos livros da sua época áurea, creio que na "Terapia", que nada há de pior que ser a/o último/a. Mas o último cigarro sabia-se quando foi ou será. Assim como o último dia de trabalho. A última página de um livro (actualmente diria o ultimo suspiro da pilha do aparelho auditivo). Tem hora, tem dia.
A diferença era enorme, acrescentava, em relação á actividade sexual. Nunca se podia dizer que esta seria a última porque nunca se sabia.Tinha-se sempre a esperança que não fosse, quer antes quer depois.

Tristemente esta dicotomia não se pode aplicar aos livros dele. Tive eu a esperança que o "thinkings" não fosse o último. Agora acho que é pena que não tivesse sido.

sábado, agosto 22, 2009

Soit pas fachée

Soit pas fachée…

De manhã bem cedo acordei tranquilo e lúcido com a letra desta canção esvoaçando longinquamente como espuma no meu cérebro. Fragmento a fragmento ia compondo dentro de mim uma ideia, um desejo, quase uma justificação. Como um ligeiro e breve raio de luz que ia iluminando, numa sequencia aparentemente ilógica, recantos perdidos das minhas memórias, dos meus sentimentos, do meu prazer e da minha dor. Da minha vida.

… si je te chante les souvenirs …

As vezes que contei esses souvenirs…os pormenores que descrevi… as composições e acrescentos com que os poli. A falsa modéstia em que tentei envolve-los…

… ces amourettes insignifiants on preparé un grand amour...

Com que intenções que os contei… A demonstração misógena e primitiva..a máscara contra a a insegurança…a preparação do caminho de regresso… a tentativa inábil de subir um patamar a cada relação, como se todo o passado fosse terreno conquistado na evolução para aquilo que não sabia procurar.

…car tu serás ma derniére chanson…

Assim acreditava, como se na vida e no amor pudesse haver primeiro e último. .. Nunca e sempre…Agora e depois… Como se fosse algo que existisse de material, de físico ou mesmo de humano. E não apenas a tal espuma saltitante e raio de luz aleatório e incerto…e fugaz…e imprevisível.

Pouco a pouco como se comandada por irreal disc jockey a melodia foi mudando embora a língua original se mantivesse

Les vieux ne revent plus…

Mas porque continuarão a contar? Serão as intenções travestidas agora de didatismo? Como se quisessem evitar erros e ensinar os percursos, as limitações, o fogo e as cinzas, não a eles próprios, mas á imagem actual dos seus antigos objectos de desejo?

O disck jockey perdeu agora a cabeça e entrou num medley sem rumo nem lógica.

…I wish I can tell
heaven from hell…


…you looked so self secure…
… when you look into de vacuum of his yes…

… what is a man
What does he got…
If not himself then he has naught…

…Ce soir je serais la plus belle
pour aller dancer…

… close you yes close the door
I”ll be your baby tonight…

…like the circles that you find…
In the windmills of your mind…

…ne me quite pas
Je vais plus parler..

…completely unknown
Like a ROLING STONE…

terça-feira, agosto 18, 2009

Os berços precisam de verniz?

Uma velha cama de grades veio, por puro acaso do destino, aterrar aqui em casa. Contou-me muitas historias da infância, de adormeceres serenos e despertares intensos. Evocou-me múltiplas imagens que presenciei através das sua grades, das figuras e dos objectos que na altura me rodeavam. Das histórias e dos sonhos que nela vivi. Da imaginação reconfortante que me povoava quando me abraçava á boneca de borracha que arduamente negociei com a minha irmã. Das próprias histórias da cama, de onde tinha vindo, a quem tinha servido na família. E o desejo súbito que um futuro neto partilhasse destas experiências.
O restaurador habitual das coisas velhas e provavelmente inúteis e a discussão do trabalho a fazer concluída com esta frase que registei:
- "Os berços antigos não precisam de verniz"

Por experiência própria e recente eu teria obrigação de saber...

sábado, agosto 15, 2009

Modern Times revisitado

Em casa depois da segunda visita aos Modern Times. Técnica irrepreensível. Mas a natureza não evoluiu. Os tecidos continuam a reagir com dor, atenuável, edema, parcialmente controlável, e com equimoses. Como após qualquer combate de pesos pesados... Haverá contudo e sempre uma segunda hipótese para o sorriso!

terça-feira, julho 28, 2009

Modern Times

Há seres, porventura mais bafejados pela natureza, em que os dentes vão refazendo o seu desgaste. Noutros ainda renovam-se consoante as necessidades. Como não é esse o caso dos humanos surgiram as M... Clinic (s).
Os meus dentes e uma dessas clínicas cruzaram-se inexoravelmente no último Sábado. Habituado que estou a trabalhar em saúde há muitos anos, e aos cenários montados por muitos dos meus colegas na medicina privada, não me deixei impressionar especialmente pela recepção nem pelo pager- vibrador posto á minha disposição. Nem pela organização e planeamento que me levaram sucessivamente aos diversos andares. Um leve e indefinido descontentamento assaltou-me quando vi que se podia também recorrer a SPA, depilação, manicura etc. Mas muito breve já que, crédulo como sempre, pensei que estava a ficar velho e ultrapassado e que essa associação até podia ser benéfica para os doentes.
Um RX panorâmico e 2 viagens no elevador levaram-me pela primeira vez ao médico dentista. O assistente. Era apenas uma avaliação preliminar já que o “chefe” fazia questão de me ver pessoalmente. Tivemos uma breve conversa. Contei-lhe que os doentes eram muitas vezes vistos pelos meus assistentes e que o meu papel de confirmação era na maioria dos casos redundante. Ele fazia questão, repetiu.

Um TAC e mais 2 viagens de elevador. Algumas explicações técnicas do assistente. E entra o “boss”. “É um caso banal” e o meu coração agradeceu. Esperava então uma explicação técnica. O porquê de uma solução ou de outra. “ Esta são 15 mil e a outra são 20 mil”.
Dei comigo a sentir como estou ultrapassado. E como teria sido a minha vida na actual era moderna.

Essa é uma migraine vulgar de 80 euros. Tem sorte porque se fosse migraine complicada seriam 120. Olhe, tem um Parkinson clássico de 10 mil. Desde a fase de “lua de mel” terapêutica até á fase terminal. Nessa altura poderemos discutir a hipótese de implante de estimulador se não estiver demênciado e tiver 50 mil. Se não talvez a assistência social pague o duodopa.
Lamento informa-la que tem uma miastenia gravis de 100 000 euros e.... E os olhos da Nilza aparecem-me de repente com uma nitidez que me assustou. A criança que vi transformar-se em mulher. As repetidas entradas, em crise, na reanimação (actualmente cuidados intensivos). As dúvidas, preocupações e noites passadas á tua cabeceira. Os teus olhos que comunicavam comigo por cima do tubo que te enchia a traqueia. (Quanto valeriam hoje os patos donalds que te levava?) A esperança da nova terapêutica (hoje com mais de 30 anos) que te tirou dessas visitas constantes á respiração assistida. Mas que te matou com as suas complicações que impotentemente não consegui debelar. Justamente uma semana depois de me apresentares o teu noivo e os projectos para a nova vida. Perguntaste-me se podias ter filhos lembras-te?
Hoje ainda sobreviverias. Terias apenas uma miastenia de 100 mil euros! Mas sobreviveria eu sem a recordação do teu olhar ?

sábado, julho 18, 2009

A antecipação

É talvez o que melhor traduz o nosso estado de humor de momento. Dêem-lhe a perspectiva de um momento bom e o prazer começa na nossa imaginação. Mas juntem-lhe um humor menos feliz e a mesma perspectiva antecipa-se em complicações e consequencias.

quinta-feira, julho 16, 2009

Uma questão de calibre

Longe vai o tempo em que viajava para a caça com duas automáticas de calibre 12, cada um dos 5 tiros que comportava carregado com 36 gramas de chumbo. Ao fim de umas centenas de tiros, violentos e ensurdecedores, parava. Mais por uma questão de desconforto que por satisfação.
Fui então progressivamente aprendendo o prazer dos pequenos calibres. Ultrapassei a desconfiança inicial do calibre 20 e dos 24 gr de chumbo. Em seguida seduziu-me o cartucho pequenino da calibre 28 com os seus 19 gramas. Inicío agora uma 410 com apenas 14 gramas.
Vivia eu na minha certeza de que o tamanho não interessava quando alguém aqui na net, numa das conversas que temos com regularidade nos últimos dias, me alertou para as diferenças da caça ao urso. Não interessa a altura dele. Até pode ser pequenino! Pode mesmo aparecer só muito ocasionalmente. Na maior parte das vezes será até prazeiroso, inócuo e inconsequente. Mas quando chega a apreciação do calibre começam os problemas técnicos. Não há cartucheira, nem XL, que o acomode.
Não sei se tenha pena ou inveja do urso. Apenas abalou a minha evolução e as minhas certezas.

segunda-feira, julho 06, 2009

Conceitos

Nas presentes eleições para os órgãos de Gestão da nossa Faculdade, embora integre modestamente uma das listas, tentei manter um distanciamento que se não completamente neutro, me ajudasse a perceber os princípios das duas listas.
Apreciei a elevação e o espírito de cada um dos documentos elaborados e, devo dize-lo, agradaram-me como académico e fizeram-me sentir orgulho numa Faculdade que mostrou dentro de si o poder de discutir e de se renovar.

Tenho, por outro lado, uma enorme admiração, respeito e até gratidão pelo Professor Manuel Antunes.

E se me dou ao trabalho de sair do tal distanciamento gostaria de destacar que o faço apenas para defesa dos princípios que penso devem nortear uma vivencia universitária e á consideração que tenho pelo autor do texto “razões para dar apoio prévio a um candidato a Director da Faculdade”. Texto esse que me motiva algumas reflexões
.
Começa e bem por destacar o papel importante que os actuais estatutos dão ao Director da Faculdade classificando mesmo os poderes que virá a ter como “praticamente ilimitados”. E como esses poderes são ilimitados, nada melhor do que ser o próprio a escolher os nomes que integram o colégio que o deve eleger e porventura “desnomear”.
Não posso obviamente estar de acordo com este princípio. Dados os amplos poderes de que dispõe o Director da Faculdade a função deste órgão colegial (Assembleia) deverá ser determinante e não se esgota na nomeação e eventual desnomeação como diz expressamente o autor do texto. É, em minha modesta opinião, o único órgão eleito e com poderes para avaliar, discutir, analisar e criticar a sua actuação.
A isto responde também o signatário da carta dizendo que há pessoas que não sabe a que mundo pertencem. Eu gostaria de sublinhar que há pessoas que pertencem a um mundo em se acredita num trabalho colegial, numa liderança que se possa criticar e influenciar. Considero mesmo o sistema colegial como a verdadeira essência do funcionamento universitário.
E aqui a escolha afigura-se-me simples. Ou escolhemos representantes em que se revejam as nossas posições, as nossas ideias o nosso espírito ou escolheriamos á partida um director para que ele próprio escolhesse os seus “representantes”.
A menor inocuidade democrática desta posição é ainda agravada quando a compara com as eleições legislativas. (“Os deputados à Assembleia da República também serão os fiscalizadores do Governo, e portanto do Primeiro-ministro, que daí resultarão.
E, no entanto, todos sabemos quem elabora a lista dos deputados e quem vai à
frente dela.”)

Tenho a veleidade de pensar, no mundo em que vivo, que:
1º Os bons exemplos devem ser seguidos
2º É das universidades, da sua capacidade para pensar em conjunto, para discutir, para antecipar, para investigar que pode nascer a liderança de processos políticos, democráticos, sociais e científicos.
Este abdicar desta importante vertente seminal, para importar exemplos da política geral do País, parece-me uma indesejável inversão de conceitos e de atitudes.

Mas ainda há uma frase que me motivaria uma discussão porventura demasiado académica para este momento:
… “eu não conheço nenhum movimento, nenhuma religião, nenhum programa político sem um líder. Como também não conheço nenhum líder político ou religioso sem um movimento, sem uma religião.”
Comentarei apenas que, em minha modesta opinião, há lideres que nascem do movimento que se gera, da tal antecipação que atrás falava como papel da universidade. Consagram em si as reflexões, o trabalho, as ambições e os princípios do movimento que encarnam.
Depois claro há os outros: que geram eles próprios os movimentos, que os controlam, fiscalizam e auto perpetuam. (Devo destacar que em minha opinião nenhum dos dois candidatos propostos se integra nesta definição).
No meu mundo universitário prefiro, talvez ingenuamente, os primeiros.

domingo, julho 05, 2009

A recordação

Cheguei agora mesmo da prova de homenagem. Uma oportunidade de relembrar o sorriso franco e aberto que aprendi a conhecer muito antes de ele ter entrado na adolescencia. Meio pesado, bonacheirão, que se tornava felino , frio e de eficácia incrível quando atirava.
- "ò Bebé explica-me como se parte aquele prato". E o puto ensinava-me repetidamente, com carinho e eterna paciência.
A última vez que o vi mostrava-me com orgulho uma enorme moto reluzente. Terá sido dessa moto também a sua última e derradeira visão.
Como gostava de acreditar que ele partiu apenas para o grande e eterno paraíso dos caçadores. Que a vida é injusta mas sábia...

quinta-feira, julho 02, 2009

Há dias...

Em que tudo corre ao contrario do planeado. Há situações que teimam em alterar-se. Ás vezes sucedem-se em "cluster" dificilmente explicáveis pelo acaso. Quase como um teste repetido á nossa resistencia á frustração. Penso que nessas alturas, melhor que a revolta, é deixar-se embalar pelas vagas continuas. E disfrutar do destino que nem sempre se pode controlar...

quarta-feira, junho 17, 2009

Saudades de ser médico



Por vezes assalta-me esta nostalgia. Do tempo em que na relação não se intrometia uma equipa de técnicos, 3 ou 4 administradores, "guidelines", orçamentos, planos quinquenais, produtividade, meta-análises, custo-benefício. Do diagnóstico que se fazia olhos nos olhos usando os sentidos e a sensibilidade. Do doente que não exigia TAC, RNM, video-eeg, PET. Como doente estarei porventura mais protegido? Se todos os exames forem normais acabará o meu problema quer como doente quer como médico?

quinta-feira, junho 11, 2009

Quase de saida do barranco

Despedida de um outono sereno e frio para um fim de primavera que desejo quente. Do novo para o velho mundo. De um eu para outro. E o rio correndo inexorável para "mar de la plata"...

terça-feira, junho 09, 2009

Vícios circulares

Dei comigo a pensar que há vícios que se saciam como a sede e há outros que se autoalimentam como os "lobbies".

terça-feira, junho 02, 2009

Ainda no barranco do rio Paraná

Depois de uma madrugada de patos "colorados" (os mais lindos) lendo Luís Rosa e o dia de Aljubarrota. Deixando-me embalar pelo português quase arcaico sem tentar entender cada palavra. Enquanto tento perceber o que nos separa do espanhol que me rodeia passados quase 700 anos.